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Mostrando postagens de setembro, 2024

Capital Social. Entrada no dicionário Bourdieu.

Ao lado do capital económico e cultural, o capital social é uma das três principais espécies de capital que, segundo Pierre Bourdieu, permite a construção de um espaço social [PB 1986h]. A expressão designa a “soma de recursos, reais ou virtuais, que revertem para um indivíduo ou grupo porque possui uma rede duradoura de relacionamentos” [Respostas: 167]. Esta definição de capital social contrasta com outras conceptualizações sociológicas. A expressão foi, aliás, utilizada diversas vezes antes de Bourdieu [Ponthieux 2006], na maioria das vezes de forma pouco sistematizada. Já na década de 1920, alguns falavam de capital social sobre “as substâncias tangíveis que mais importam na vida quotidiana das pessoas, isto é, boa vontade, camaradagem, simpatia e relações sociais entre indivíduos e famílias que formam uma unidade social” [Méda 2002: 37 ]. Mais recentemente, a noção de capital social tornou-se amplamente difundida graças aos esforços de Robert Putnam [2000], retransmitidos por...

Os espelhos de Lanthimos

Por vezes o fim, não é o resultado. Yorgos Lanthimos(*) tem sido o foco de minha energia ultimamente. Acabo de assistir The Lobster (O lagosta) e a característica descompassada, mecânica ou simplesmente alienada em que seus filmes recentes operam continua a se fazer presentes. Acima de tudo, é um cinema da reificação - tal como há um cinema da conspiração. Talvez, tomado nesta perspectiva, se possa compreender o pessimismo que O Lagosta inspira. Durante o filme pensara que era como estar num sonho que beirava um pesadelo, coisa que há tempos não tenho: tal como nos sonhos, mesmo absortos na visão das coisas que se passam para nossos olhos, não temos nenhum poder ante seu fluxo. Temos consciência e nenhuma liberdade, não sabemos o que esperar. Ao menos é isso que este filme suscita, sua realidade dualística e, mais do que isso, o encadeamento das atitudes do personagem central quebram com as expectativas que fazemos diante do seu futuro... Um esquema: as mulheres na filmografia de L...

Notas sobre “O mundo depois de nós”

Um conjunto de clichês de esquerda que rolaram pela pandemia podem ser observados ao longo das duas horas de filme - o que me vem a memória agora é só aquele que diz: “não haverá novamente o normal”. Dei uma olhada em críticas ao filme que apesar de muito assistido na Netflix não satisfez a audiência especializada que, quando muito, viu nele uma panacéia de topos do momento: fuga da alienação, racismo, construção de confiança, teorias da conspiração, guerra mundial, catastrofismo e uma aparente incerteza do que esperava os personagens... Mesmo destacando tudo isso, ninguém pelo que vi falou algo que não deixou de saturar meu olhar: a presença contínua durante os minutos iniciais do tom azul marinho, do quarto da casa do casal até o quarto da casa alugada na forma de ondas do mar... Olhando dessa perspectiva se torna compreensível que, desde o princípio, todos ali já estavam mergulhados e afogando-se numa estrutura simbólica comum que lhes dava a garantia que tudo continuaria a ocorrer ...