Por vezes o fim, não é o resultado.
Yorgos Lanthimos(*) tem sido o foco de minha energia ultimamente. Acabo de assistir The Lobster (O lagosta) e a característica descompassada, mecânica ou simplesmente alienada em que seus filmes recentes operam continua a se fazer presentes. Acima de tudo, é um cinema da reificação - tal como há um cinema da conspiração. Talvez, tomado nesta perspectiva, se possa compreender o pessimismo que O Lagosta inspira.
Durante o filme pensara que era como estar num sonho que beirava um pesadelo, coisa que há tempos não tenho: tal como nos sonhos, mesmo absortos na visão das coisas que se passam para nossos olhos, não temos nenhum poder ante seu fluxo. Temos consciência e nenhuma liberdade, não sabemos o que esperar. Ao menos é isso que este filme suscita, sua realidade dualística e, mais do que isso, o encadeamento das atitudes do personagem central quebram com as expectativas que fazemos diante do seu futuro...
Um esquema: as mulheres na filmografia de Lanthimos sempre constam como fabricação dos grupos ou diretamente dos homens. Não existe espaço para "final feliz" e menos ainda para a errônea interpretação de Bella Baxter como heroína em Poor Things. (Nesse sentido, o encobrimento dessa função geral das simbolizações do feminino em sua obra está melhor realizado na figura dela (1)).
Mas, o que fazer com a forma geral de The Lobster? Sua exploração de um mundo sem amor, mostrando que, no final de contas não existe sentimentos e muito menos individualidade, apenas fraqueza, desejo e "necessidade de validação" (como diz o jargão de nossa época), não repete mais uma vez a clássica crítica conservadora do espírito de rebanho? Poderíamos ver o trabalho de Lanthimos como uma busca da individualidade dentro de formas sociais muito alienantes(2) - mas não contra tais formas. Seria essa possibilidade de oposição real à vida coisificada que melhor traduz o incômodo que O Lagosta deixa: David, personagem central, é o homem, o solteiro e o animal, sua busca por amor, ora por fingimento e ora por sentimento, não deixa de transparecer, sempre ao fim de seus esforços ser um movimento inautêntico - falso - que ao fugir dos seus grupos, só confirma sua pertença íntima à eles - e à sua declarada incapacidade de amar. O seu problema é que não pôde participar da hipocrisia tal qual os moradores do hotel e nem ser um iconoclasta, como os solteiros da floresta. As mulheres retinham uma verdade quanto aos seus fins que lhes era incapaz de refletir: como uma repetição tragicômica, a primeira mulher ele "a animalizou", a segunda ele abandonou.
Então, qual o papel da líder da resistência dos solteiros, Loner Leader (Léa Seydoux)? Não seria ela tão má quanto os cidadãos normais e, principalmente, os gerentes do Hotel por ter violentado o surgimento de um amor verdadeiro? Ter cego a amante de David não a fazia merecedora de seu destino, ser largada viva para os lobos da floresta? Naquele mundo não havia possibilidades para nada como um amor e todas as instituições que lhes são consequentes existirem.
Nada mais individualista que apresentar o amor como expressão do medo e do risco de ficar sozinho (3). O amor é cego - para Lanthimos, cego e sublime -, um simples problema de vista, de perspectiva, numa sociedade de classes (4). A possibilidade de atingir a experiência pressuposta ao todo longo do filme, um amor que chegue à diferença, que não implique a própria imersão alienada de si no outro e reciprocamente, como um jogo de espelhos (5), estava por ser construída naquele mundo. Não bastava simplesmente retornar à cidade com a hipocrisia que é inata a todo retorno às origens.
Faltava, para eles, criar as formas para esse amor. Os espelhos precisariam ser quebrados (6).
* Para ver uma rápida biografia:
1 - a estrutura superficial herói/vilão x vítima não deixa passar às outras estruturas atuantes no filme. Em relação à recepção de Bella como exemplo de superação feminina ou mesmo como uma "criadora de si" ou um romance de formação (em que as mulheres só podem ser formadas pelo sexo bruto). Vejam: "Pobres Criaturas: Bella Baxter e seus ensinamentos sobre o que nos torna humanos"; 'Pobres Criaturas' é muito mais convencional do que parece" (Folha de S. Paulo).
2 - o apelo de certa leitura de Bella vem daí. Nela a autoafirmação da liberdade liberal pode se concluir, passo que sempre fica em aberto nas demais obras.
3 - em Poor Things é um amor incestuoso, sublimado, que rege a vida de Bella. Amor puro como o amor "do criador". O que fortalece nosso esquema interpretativo.
4 - a contragosto, podemos observar uma alusão edipiana: não só na cegueira que a amante de David adquire, mas por seu primeiro amigo ser também manco.
5 - esse jogo de espelhos embasa toda significação da obra: humano x animal, cidade x floresta, homem x mulher, casados x solteiros, coletivo x individual.
6 - o que seria um problema: poderia o cineasta grego compor e propor seus filmes-respostas à outros problemas que não tivessem em sua colocação tais "espelhos"? Sobre sua problemática ou filosofia artística: https://www.latimes.com/entertainment-arts/movies/story/2023-11-30/director-yorgos-lanthimos-poor-things-emma-stone-mark-ruffalo-interview

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