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Mostrando postagens com o rótulo Materialismo

O silêncio musical dos corpos

Candido Portinari. Meninos brincado , 1955. VIVER É FREQUENTAR¹. “Você pra jogar imagina, eu jogo sem imaginar”, música de capoeira. “Na dança o sujeito e seu mundo não mais se opõem, não mais se destacam um sobre o outro”,  M. Merleau-Ponty, Fenomenologia da Percepção. “Menino quem foi teu mestre? Meu mestre foi Salomão. Andava de pé pra cima Com a cabeça no chão ” , música de capoeira. Para quebrar com certa noção fácil e que não permite grandes mudanças de perspectiva, inicio afirmando ser a vida o contínuo treinamento que nos permite conhecer as sequências do mundo. O acesso às ordens sequenciais advindas do treinamento, isto é, da continuidade numa condição enquanto fim do conhecimento retira da própria vida a sua determinação básica de ser conhecimento sem finalidade manipulativa a priori, isto é, conhecimento sem consciência. Vivendo aprendemos a conhecer e reconhecer o ritmo invisível do movimento das coisas. Daí a dança como interação recíproca surge como modo mais que met...

Com Weber, contra Weber. Entrevista com Pierre Bourdieu.

Com Weber, contra Weber. Pierre Bourdieu.  Pergunta: Quando você começou a se familiarizar com a obra de Max Weber? Se bem entendi, isso aconteceu durante sua estada na Argélia. Que tipo de texto você estava lendo naquela época?   Pierre Bourdieu: Comecei com Die protestantische Ethik. Durante esse tempo, eu estava trabalhando em um livro que pretendia resumir minha pesquisa sobre a Argélia. Em Die protestantische Ethik havia uma abundância de coisas sobre o tradicional "espírito" pré-capitalista e sobre o comportamento econômico - descrições maravilhosas que foram muito úteis e, de fato, bastante impressionantes. Recorri ao trabalho de Weber para compreender o M'zab, uma extensão de terra no deserto árabe, habitada principalmente por Kharijitas, que são muçulmanos com um estilo de vida muito ascético - e quase "puritano" e a quem poderíamos chamar 'os Protestantes do Islã', uma corrente religiosa. Isso foi realmente incompreensível; esta austeri...

Do campo ao espaço de serviços. Em Lemieux, O crepúsculo dos campos

Seção de um capítulo de Cyril Lemieux intitulado O crepúsculo dos campos no livro  Bourdieu, teórico da prática. Link: https://books.openedition.org/editionsehess/11772#bodyftn32 [...] DO CAMPO AO ESPAÇO DE SERVIÇOS Foi num texto publicado em 1996 sob o título Sur la Télévision – transcrição de dois cursos do Collège de France veiculados no mesmo ano pelo canal de televisão Paris Première – que Bourdieu talvez tenha trazido mais claramente à luz o que implica, se assim manter-se coerente consigo mesmo, uma concepção restritiva do conceito de campo. Os desenvolvimentos contemporâneos da actividade jornalística em França deram-lhe, de facto, a oportunidade de se interrogar, talvez pela primeira vez, sobre os mecanismos sociais através dos quais os campos podem sofrer retrocessos para a heteronomia, na medida em que a sua existência, enquanto campo, fica assim comprometido. Ao não hesitar em abrir tal reflexão, simétrica àquela realizada três anos antes em As regras da arte sobre...

Trecho do livro Geometria do Espaço Social de Pierre Macherey.

Trecho do livro de Pierre Macherey, Geometria do espaço social: Pierre Bourdieu e a filosofia. • Excursus: o tratamento do referente pascaliano  O livro, no post-scriptum do segundo capítulo, apresenta cerca de dez páginas intituladas "Como ler um autor?" (ivi, pp. 91-98), em que Bourdieu, a exemplo de Baudelaire, ralha violentamente contra os maus hábitos de uma leitura, que considera escolástica, dos "autores", auctores , cuja "neutralidade desrealizadora" denuncia nos seguintes termos: "Um dos clichês mais banais da celebração dos “clássicos”, que acaba por relegá-los a um limbo vazio, fora do tempo e do espaço, em todo caso a uma grande distância dos debates e lutas de o presente, paradoxalmente consiste em descrevê-los como nossos contemporâneos e nossos vizinhos, os mais próximos dos vizinhos - tão contemporâneos e tão próximos que não nos fazem duvidar nem por um momento da compreensão aparentemente imediata (mas na verdade mediada por toda a ...