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O silêncio musical dos corpos


Candido Portinari. Meninos brincado, 1955.

VIVER É FREQUENTAR¹.


“Você pra jogar imagina, eu jogo sem imaginar”, música de capoeira.

“Na dança o sujeito e seu mundo não mais se opõem,
não mais se destacam um sobre o outro”, 
M. Merleau-Ponty, Fenomenologia da Percepção.

“Menino quem foi teu mestre?
Meu mestre foi Salomão.
Andava de pé pra cima
Com a cabeça no chão, música de capoeira.



Para quebrar com certa noção fácil e que não permite grandes mudanças de perspectiva, inicio afirmando ser a vida o contínuo treinamento que nos permite conhecer as sequências do mundo. O acesso às ordens sequenciais advindas do treinamento, isto é, da continuidade numa condição enquanto fim do conhecimento retira da própria vida a sua determinação básica de ser conhecimento sem finalidade manipulativa a priori, isto é, conhecimento sem consciência.

Vivendo aprendemos a conhecer e reconhecer o ritmo invisível do movimento das coisas. Daí a dança como interação recíproca surge como modo mais que metafórico para entendermos a sucessão desordenada de muitas coisas como ilusão de uma mente que está ela mesma desordenada quanto ao ritmo do que é. Seria preciso dizer que ao dançar sempre estamos em relação, o que se corresponde com a estrutura de todas as dimensões da existência. Essa é a grande hipótese do bailarino, princípio simples que lhe foi ensinado direta ou indiretamente pelo próprio ato de bailar: onde há movimento tem de haver uma harmonia de fundo, o movimento é a matéria da melodia, é a música que ouvimos com os olhos. Já o corpo do dançarino, ao contrário, é o instrumento mais perigoso para toda orquestra porque o seu corpo toca o silêncio: se seus passos em desajuste suspendem a música em ruído, o corpo é o instrumento que ecoa o silêncio a ser contido².

O ritmo, disposição essencial para qualquer músico ou bailarino, porém, demora até penetrar na base dos corpos e fazê-los pulsar em uma particular frequência. Não seria exagerado lembrar que mesmo a luta, por mais mortal que seja, é uma dança e que até para acertar seu oponente é preciso pôr-se no tempo potencial de seu corpo, é preciso um ato de sincronização que consiste em encontrar e antecipar o ritmo de seus movimentos.
Daí, tendo por condição o frequentar, uma vida que não se fundamenta, isto é, que não se ocupa e que não foi ocupada só se apropria de fragmentos das múltiplas harmonias à disposição no mundo, sem alcançar a unidade de movimento possível com os demais dançarinos, por isso mesmo restando-lhe dançar um tempo fora, atrás ou na frente.

Eram olhos profundamente musicais aqueles que diziam: "harmonia invisível, mais forte que a visível", "só acredito em um Deus que saiba dançar" ou ainda "estando em repouso, movimenta-se". Ou melhor, olhos sensuais, abertos para aquilo que não estava só aberto, mas dado.

É claro, entretanto, que nem sempre sabemos que estamos dançando, o que não é uma exceção a nossa condição. Nem sempre nos apercebemos exprimindo-nos ritmicamente, mesmo quando o tom da voz dos pensamentos que temos enchem de sonoridade e beleza nosso vazio interior. Temos de concluir, nessa altura, que nossa experiência natural geralmente nos impede que vejamos pelos ouvidos e que escutemos com a boca³ -- os únicos atos sinestésicos que ela nos permite é aquele de comer com as narinas (dieta) e de cheirar com os olhos (nojo), sínteses basilares de qualquer processo ascético --  nos impedindo, desse modo, o maravilhamento de retornar -- ou de nos mantermos -- no estado sincrético onde todos os sentidos da vida remetem suas percepções a um corpo que não está se mexendo sozinho, corpo que por alguns instantes deixa de ser parte de um todo e torna-se o todo na parte, contração das suas possíveis incidências, perspectiva da perspectiva que faz um novo passo dançante, que grita, que bate seus pés num ritmo diferente  ressonando na terra pisada como tambor⁴ que transforma o sentido que dirige a harmonia das coisas. Marcha.

Notas
1. Não sem certa ironia descobri na origem de frequens tanto a repetição quanto o amontoamento, a ocupação.
2. Os pensadores do corpo sempre foram pensadores do silêncio expressivo, da harmonia invisível de Heráclito até "o silêncio dos espaços infinitos" que apavoravam Blaise Pascal. Esta tradição encontrou sua fórmula mais pura em Marx que dizia ser o ser social que determina a consciência, e não o contrário. O corpo sincrético é essencialmente anti-filosófico, pois, ele é conhecimento que supera a palavra ao torná-la carne, ao interiorizá-la como faz com outros alimentos exteriores a ele e nisso abre a possibilidade de que novas palavras surjam. Chamar tal disposição corpórea de síntese passiva é uma das maiores violências contra o corpo que só uma filosofia visceralmente católica poderia realizar.
3. Vale lembrar que antes da invenção do martelo triturávamos as coisas com os dentes.
4. O tambor, instrumento percussivo mais primitivo, traz um horror para todas as tradições teístas porque por debaixo da pele esticada sobre o tronco, só há vento. Tronco e couro, o mais animal dos instrumentos musicais que ressoa o ritmo dos corações é possuidor de um vazio em seu centro. 

 

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