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Resistência e Necrotopia do Presente

O que se lança em uma aposta? Meus amigos se encontram endividados. Muitos herdando dívidas do passado, de seus velhos vícios, outros procurando dívidas para ter um pouco mais de alegria em suas vidas rente ao chão da existência. "Ah, irei jogar no triguinho também! Todo mundo tá ganhando, não tem como, também vou fazer isso. Eu vi, eu vi. Com 80 reais ele fez 400 em uma noite, por que eu não poderia ganhar isso também?". Eu preciso lembrá-lo, com as trágicas piadas de humor negro que cada vez mais dão o tom da socialidade de nosso cotidiano: "você meu amigo, mas você nunca teve muita sorte. Teus amigos que jogam roubam, traficam, vivem no fio da meada e quase nunca foram presos. Já você, pelo contrário, foi preso sem causa alguma e isso te custou três anos". Coisas que nos fazem rir e que nos enviam para a habituação dele à cadeia. Sempre reconta essa história que a cada vez se torna mais rica. A história se enriquece, recupera sua forma vivida conforme o tempo que ele está em liberdade aumenta e ele recobra o mínimo da dignidade, da palavra, da cabeça erguida, dos ombros retos que lhe foram quebrados na sua detenção. "Na cadeia, o dinheiro era o cigarro",  o fio para então entrar numa longa história sobre a consciência do vício e o vício em aposta de outros detentos, doidinhos, que apostavam até a cama, sua bolsa de fumo, seu travesseiro. Eles não conseguiam parar. Eu não, eu virei o quê, Gabriel? Um tipo de capitalista da prisão? Eu jogava bem, arrumei um bom parceiro, fiz minha poupança. Eu tinha 8, 9 feiras ali, comigo. Eu tinha nove rodadas pra ganhar dele, enquanto ele, só tinha uma feira. A cama, tudo que você imaginar eles colocavam no jogo. Histórias que se misturam, práticas que levam às outras, passado e presente que se encadeiam em narrativas que reencontram em Deus sua justa causa, sua preparação, seu caminho da necessidade porque, de certo modo, parecia que eu fui feito para passar pelo que passei. Desde o tempo em que minha mãe me obrigava a comer fígado no almoço enquanto meu irmão mais novo, que tinha pai, não precisava. Já passei três meses trancado em casa de castigo, da escola pra casa. Eu tenho que crê em alguma coisa, por mais que eu não queira. Como explicar, parece que toda minha vida me apontou para isso. E também para aprender a perdoar. Me diz aí, Ana, o que machuca mais, o amor ou o ódio? Vou te dar dez anos para me responder, você ainda é nova, não viveu o bastante pra entender essas palavras. E a vida, ela aparece como um sentido louco e não adianta, pelo menos não adiantou, elencar que tal como ele, todos os nossos vizinhos, todos os homens de nossa geração de nossa rua tinham tido algum acidente que envolvia a polícia durante sua adolescência. O sentido sociológico que me é tão caro para ele era uma coisa mágica, mística. Nessa rua inteira, do lado direito, todo mundo já teve muitas loucuras, loucuras. Mas, me dá muita alegria de ver essas crianças na rua, brincando, jogando bola. Tem que ter gente assim, livre, que tem infância assim como é preciso ter gente como você, Ana, trabalhadora, que sai de manhã cedo de casa enquanto a gente ainda tá terminando a noite com o sol nascido. Imagina se o mundo fosse só assim, cheio de gente careta? Como tu ia ter teu emprego? Imagina se todo mundo fosse careta como gente como tu ia conseguir trabalhar? É preciso ter os vagabundo, tudo no mundo tem sua precisão. Com essa doutrina da vagabundagem ele pensava que poderia transformar-se em coaching -- anos atrás ele diria filósofo. É parte das noitadas discorrer sobre o ser da própria noite, do estar desocupado a matar o tempo. E apostar é um desses modo de matar a noite, é um modo de matar o vício com vício. De pedir, manguear, de fazer o que for necessário para fazer uma aposta online em alguma plataforma e com isso pagar a intera do fumo que vai garantir que se passe mais tempo junto esperando o dia nascer. Estar junto não sem conflito, mas antes de tudo junto, gargalhando, falando, arriando a lombra, deixando o corpo leve e o pensamento desamarrado de todas as obrigações que o dia significa, de todos os olhares, inclusive do seu próprio, que diante do vazio de tardes inteiras não deixa de lhes inscrever em seus espíritos a margem que habitam. Vivendo a noite como o dia dos outros, caretas, de cara feia, cara amarrada, de cara fechada pra gente. Vivendo um mundo invertido e, ainda assim, contínuo ao mesmo mundo de quem escreve, relacionado de maneiras infinitamente sutis àqueles que para eles distribuem o pesado juízo de que vivem na insensatez, na irresponsabilidade, na indiferença. Vagabundos, gente da vida louca, como tantas vezes se repete sem ao menos entender o porquê  da loucura dessas vidas, o porquê desses loucos fazerem um elogio da loucura que, nos seus termos, pouco deve à Rotterdam. Tempo livre para viver bem, viver bem para ter tempo livre. Se há certo brilho nisso tudo, um brilho que não se importa com o sol estar ou não no céu e que, no máximo, se importa com a quantidade de pessoas na rua, é porque do tempo não se espera muito ou, melhor dizendo, é um tempo que não guarda incertezas. As coisas estão indo bem, o necessário virá, muito ou pouco, para manter as coisas tal como estão. Há uma certeza em esperar, há uma certeza em acreditar. Nesse mundo quase pascaliano onde acreditar custa menos que não acreditar, uma casa de apostas à mão onde se pode ganhar muito após perder repetidamente muito pouco se ajusta bem à loucura e mistério dessa vida

Entretanto, crença e descrença distribuem-se de modo que quase tudo aquilo em que não se crê nem chega a surgir como objeto consciente de um juízo de descrença, de um eu não acredito. Ao acreditar-se no que crer, consciente ou não, petrifica-se todo um domínio de possibilidades de ação abstratamente a todos disponíveis. Não é preciso dizer não porque o não já estava feito nesse espaço de vida ou, muitas vezes, esquecido.

Ao cabo, sobrevive-se. Alguns teóricos preferem dizer que se resiste, que se reinventa, que sempre se dá um jeito de resistir. Mas soa um pouco fácil elogiar a astúcia em manter-se vivo sem entendê-la como estratégia de quem pouco teve para viver. Daí para pensar e falar na criatividade pura, indeterminada, supostamente livre de restrições e irredutível a qualquer coisa daqueles que se encontram expulsos da sociedade do trabalho é um passo além de falso, imoral. Para um último recurso ao discurso indireto livre valeria lembrar de quando fui procurar emprego após sair. Cheguei lá, no Consultório Social e me chamaram, João Pedro da Silva. Mas eles me viram, viram isso aqui, como eu me visto. É igual quando eu ia no caps: os motoristas perguntavam se eu trabalhava lá ou, quando eu ia ao julgamento, pelo jeito com que eu falava, o pessoal achava que eu estava fazendo outra coisa, não que era eu ia ser julgado e falar com a juíza. Aí, na fila de emprego, me julgam porque me veem assim, porque não sou babão, porque não me humilho para ter as coisas. Fui lá duas vezes, meus amigos iam lá direto, arrumavam um emprego, saiam, iam de novo e saiam de novo, sempre tinha vaga. Eles me olhavam assim e deviam imaginar que eu não precisava, mesmo eu querendo. Deixei de ir. Deixei. Viajei ao passado e encontrei outros favelados, agora mulheres , mais esfomeadas do que aqueles que acompanho em meu tempo, elas me lembram nossas avós... Eu estou contente com os meus filhos alfabetizados. Compreendem tudo. O José Carlos disse-me que vai ser um homem distinto e que eu vou trata-lo de Seu José.

Já tem pretensões: quer residir em alvenaria...

Eu fui retirar os papelões. Ganhei 55 cruzeiros. Quando eu retornava para a favela encontrei com uma senhora que se queixava porque foi despejada pela Prefeitura.

Como é horrível ouvir um pobre lamentando-se. A voz do pobre não tem poesia.

Para reanimá-la eu disse-lhe que havia lido na Bíblia que Deus disse que vai concertar o mundo. Ela ficou alegre e perguntou-me:

—Quando vai ser isto, Dona Carolina? Que bom! E eu que já queria me suicidar!

Disse-lhe para ela ter paciência e esperar que Jesus Cristo vem ao mundo para julgar os bons e os maus. 

—Ah! então eu vou esperar. 

Ela sorriu. ...

Despedi-me da mulher, que já estava mais animada. Parei para concertar o saco que deslisava da minha cabeça. Contemplei a paisagem. Vi as flores roxas. A cor da agrura que está nos corações dos brasileiros famintos.

Talvez nossos letrados dissessem: “Se apostar, concretamente, é uma estratégia de sobrevivência econômica, então, que seja! Toda resistência é válida”. Maravilhar-se com a beleza da miséria dos outros, com a poesia da vida alienada, com sua capacidade de viver como nós, de rir como nós, de sentir como nós, de dar um jeito como nós não passa de um mecanismo de defesa de muitos intelectuais, políticos, poetas que querendo ou não desposam do populismo "da voz de povo é a voz de Deus", esquecendo as condições históricas de produção desse povo e que, principalmente, tais condições viram a carne do povo, seu modo de perceber, de sentir, de experimentar e agir no mundo, viram a criatividade popular. Eles dizem que ver que a miséria produz miseráveis é determinismo, é reprodução, e dizem que todos somos humanos. Mas é de se admirar como isso é feito: projeta-se a liberdade humana ao modo do "eles são como nós" para se deixar de ver o que funda a diferença objetiva e relacional entre "nós" e "eles. Muita ginástica analítica e categorial para manter necessidade e liberdade, mundo e resistência como coisas que não são o mesmo conhecido de modos e perspectivas diferentes. Muita energia para conservar o peso do mundo e a resistência do indivíduo. Até porque, quem resiste é forte ou pelo menos se fortalece minimamente. Mecanismo de defesa funcional em economizar as energias psíquicas diante dos complexos modos de dominação social e das abissais desigualdades que em nossas sociedades existem, apesar dos pesares da boa vontade ou da bela alma do intelectual, confunde-se, no melhor dos casos, a atitude compreensiva diante de um mundo cultural com sua relativa autononia com a acriticidade que impede de perceber que os diferenciais de poder estão não só operando limitando as ações possíveis, mas também forjando as condições da transformação dessa própria condição. Do contrário, reencontramos sob a forma da resistência a compreensão individualista e anti-histórica da ação carismática dissociada da crise das estruturas sociais que condicionam o sucesso de seu exercício.

O que se lança em uma aposta não é o dinheiro, mas a própria crença no possível. E é isso que as sociedades capitalistas expropriam: o poder de desconfiar da necessidade desse modo de vida.

Nesse cenário em que não se pode dizer qual a pior parte, certamente, no elogio da resistência, tal defesa intelectual da agência/criatividade/ astúcia dos dominados é feito para que os intelectuais evitem de dar a colaboração que técnica e socialmente lhes compete, a clarificação dos mecanismos de exploração econômica e de dominação social que reproduzem um mundo que obriga significativas parcelas de seus habitantes a resistir. O modo de resistência intelectual - apesar de muitas vezes ser - não precisaria significar um elogio da resistência dos dominados. Afinal de contas, se uma imaginação utópica é uma das necessidades de um tempo necrotópico como é o nosso tempo, um dos primeiros axiomas para tal imaginação de mundos não seria a produção de um lugar onde a resistência ao mundo social não seja mais uma necessidade para viver?

O exercício de determinação da necrotopia do presente, dessa democracia onde aprendemos a conviver entre nós - num exercício de tolerância de dar inveja a grandes liberais - com as bestas do século XX na figura de amigos, conhecidos, patrões ou políticos já está dispersos em muitos textos que circulam por aí, mesmo que muitas vezes sem a devida forma. E vejamos ainda: nós também, como um todo, conseguimos produzir modos de habitar e conviver com aquelas formas históricas já denominadas signos do mal absoluto. Também nós somos criativos em lidar com nossa dominação, em naturalizar a barbárie e dar um jeito de viver com ou apesar dela! Também nós, intelectuais, “somos resistência”.




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