I. O mercado das ideias: A esquerda Ubu e a esquerda Boitempo
1. O texto publicado pelo filósofo Douglas Barros no blog da editora Boitempo – casa de esquerda que vem pautando parte do debate intelectual e universitário brasileiro de viés classista nos últimos 20 anos, responsável pela recente publicação de Angela Davis, Patricia H. Collins e outras intelectuais promotoras da análise interseccional, solução ante a interpretação linear dos problemas ligados a classe, raça ou gênero – na última quarta-feira, 21 de janeiro de 2026, logo cumpriu o esperado: em 15 horas gerou 875 comentários e 4.200 curtidas. Bem, façamos uma matemática básica: por baixo, para cada curtida consideremos que houve10 visualizações, assim, o texto foi entregue e visto por no mínimo 42 mil pessoas. Bons números! Cabe continuar acompanhando o crescimento do engajamento no post para termos a dimensão do impacto dessas ideias no público de esquerda. Deixemos de especulação.
2. Afinal de contas, sobre o que versa tal texto de circulação tão rápida e impacto tão forte? O segredo não se guarda no título, "Contra Nego Bispo", liderança quilombola, militante político e intelectual que faleceu recentemente e que se tornara nos últimos anos, em uma definição reduzida, uma grande referência de setores do campo progressista que encampam a luta ideológica contra as ideias e crenças de matriz europeia que estruturam nossas instituições política e, principalmente, estatais e religosas. Nego Bispo teve em 2023 a publicação do seu livro “A terra dar, a terra quer”, pela editora Ubu.
II. O delírio colonial ou a loucura capitalista? Identitários e Eurocêntricos no espelho
3. O texto de Douglas, entretanto, não caiu do céu: ele se instala num arco recente de publicações de diferentes formatos (inclusive audiovisuais) que visam uma crítica ao "identitarismo" e a outras tendências, digamos, maniqueístas, que vem redefinindo o debate universitário nos últimos anos e através de outras tantas mediações, o debate político. Basta citar o impacto do texto publicado dias atrás, em 06 de janeiro, por Vladimir Safatle – filósofo uspiano e um dos mentores da atual esquerda marxo-lacaniana brasileira: "O grande FMI universitário. Como o colonialismo domina os estudos decoloniais”, na Revista Piauí. Ele também está provocando um terremoto nas crenças relativamente seguras e importadas (porque não "americanocêntricas") que esteiam parte dos pressupostos não só ideacionais, mas sociais, que determinam tanto a circulação como a força das ideias que viajam do centro para a periferia, por vezes em detrimento das tradições críticas locais, porém, muitas vezes se amalgamando e, com o tempo, diluindo as "teorizações periféricas" que levam em conta a especificidade e a gramática teórica dos conflitos sociais de determinado país pelo impacto opaco e inconsciente que detém o poder das "novas ideias do norte global", mesmo quando elas não se mostram assim.
4. Retomando a disputa travada por Douglas, apesar do título provocativo e com um ótimo timing para o mercado das ideias (porque hoje em dia, comentar a postagem sem ter lido seu conteúdo é também um modo de comprar seu conteúdo e gerar valor para casa), o texto opera na chave clássica da análise e crítica da ideologia. Apesar de seu germanismo usado em excesso – e sem a devida enunciação de sua função heurística – para fazer ver as semelhanças formais entre dois momentos distantes no tempo do mundo intelectual, a análise vai recuperar a história e função do romantismo ou da negação simbólica das relações materiais capitalistas e de seus efeitos desagregadores sobre a vida social. Por isso, ele estabelece, de fundo, não só uma continuidade histórico-linear abstrata, mas um conjunto de afinidades eletivas entre a ideologia romântica dos alemães do século XVIII e o atual “romantismo identitário brasileiro” (é essa categoria que está pressuposta em sua elaboração) que será representada pela figura carismática do Nego Bispo.
III. O Romantismo em Santa Cecília e no Leblon: a dimensão social obscura da crítica filosófica
5. A rápida polêmica causada pela publicação revela bem os sentimentos mobilizados em seu entorno: de um lado, aqueles que vão criticá-lo em nome de uma relação pessoal com Nego Bispo, símbolo recente do saber oral, popular e da “sabedoria ancestral” contra a denunciada serventia do filósofo marxista à “Casa Grande” (da luta de classes); de outro, aqueles que vão pedir uma análise fria e objetiva dos argumentos apresentados em sua coerência sem recair no ad hominem. Através das tomadas de posições por perfis tão diversos (pois ali se trata de perfis, essa partizinha digital da existência) em torno desse mesmo texto, a dimensão social das ideias, ou melhor, a posição social daqueles que as compram e as usam em suas batalhas existenciais em busca de sentido no mundo, se torna mais palatável. Destaque-se, por exemplo, os comentários feito por dois perfis que se propõe a fazer o debate simbólico "contra os delírios coloniais", como diz um deles: Amarelitudes (perfil profissional com 16,7 mil seguidores) e Afroestima ( perfil mais pessoal com 156 mil seguidores, quase metade dos seguidores do perfil da editora que publicou o texto).
6. As características históricas do argumento de Douglas acertam ao apontar que do ponto de vista político internacional enfrentamos uma ressaca e reorganização após a quebra soviética e de seus efeitos na elaboração e resistência ao eixo capitalista da guerra fria. A história é o sangue do processo, esquecer desse "simples fato", ou pior, não saber seu peso na equação das lutas políticas contemporâneas é um erro presentista que faz perder de vista um grande fator na estrutura das crenças políticas progressistas do ocidente e de suas "periferias coloniais". Agora, a crítica a Nego Bispo por ele proposta incomoda muito porque, ao fim e ao cabo, é uma crítica a um certo ethos, a um grupo social que se fia em Nego Bispo, grupo possuidor de características sociais, intelectuais, políticas (linguísticas até) muito específicas e opostas às características estimadas pelos representantes e escritores da Boitempo e, principalmente, do blog A Terra é Redonda, que sistematicamente promovem o "combate ao identitarismo" no campo da esquerda. Exemplar quanto a isso é a crítica do perfil Amarelitudes nos comentários a postagem que assim conclui revelando poeticamente como alvo da crítica os moradores dos "apartamentos epistemicidas e gentrificados" de São Paulo e do Rio de Janeiro:
“Que sua provocação enseje o debate e aponte a lâmina afiada aos "apartamento" epistemicidas e "gentrificados" de Santa Cecília, Leblon ou Vila Madalena. Dito isto, VIVA NEGO BISPO!”.
Mesmo nessa crítica construtiva ao texto, a conclusão endossa o argumento social e de classe do filósofo classista que foi exposto de modo ambíguo ao fim de sua crítica, ainda que eufemisticamente: o objeto da crítica é interno à "esquerda" e à recepção de Nego Bispo, a saber, é o grupo dos universitários pequeno-burgueses paulistanos e cariocas (poderíamos também seguir esse hábito e cada leitora e leitor dessa nota fazer uma variação imaginária para encontrar o bairro equivalente em sua cidade que represente essa visão estetizada e estetizante do conflito social, mas isso não vem ao caso). Então, expõe Douglas nas linhas finais, não sem causar certa perplexidade, o fundamento social de sua crítica:
“Ao fazê-lo, dissolvem relações materiais, interesses geopolíticos e determinações históricas concretas numa narrativa mítica confortável. Enquanto o mundo caminha para a guerra mais tecnologicamente sofisticada da história humana é obscenamente confortável refugiar-se numa cosmologia imaginária de “povos originários” igualmente imaginados – consumida, não raro, no interior de apartamentos gentrificados de Santa Cecília, Leblon ou Vila Mada.
Numa época em que todos parecem buscar um mestre, ou um guia espiritual para justificar a abdicação do pensamento crítico, permitam-me declarar, sem ambiguidade: fico fora dessa”. (Ou, se Douglas fosse dizer de modo direto, talvez dissesse: eu não moro nesses bairros, não tenho esta posição de classe e por isso não me deixo seduzir por tal estetização e idealização do conflito social como um puro conflito cosmológico).
Aqui fica claro, mas ainda de modo obscuro e ao gosto filosófico, que o tiro não é diretamente contra Bispo, ele é principalmente contra seus leitores, mediadores e curadores. Bispo aparece quase como um xamã mais ou menos involuntário de uma classe média em crise de sentido – ponto que inclusive o perfil Amarelitudes também vem a corroborar.
IV. Do Oprimido ao Ancestral: a passagem histórica de Paulo Freire a Nego Bispo
7. Dito isso, relato uma breve experiência pessoal sobre esse processo histórico brasileiro: na mesma parede (ou altar) do Centro de Ciências Humanas, Letra e Artes (CCHLA) da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) onde antes estava um grafite com o rosto de Paulo Freire atualmente se encontra o de Nego Bispo. Logo me saltou aos olhos: "é uma substituição funcional!". Bispo é o equivalente a Freire num momento em que ocorre uma inversão de poderes entre grupos étnicos no campo político brasileiro. A relação com a prática entre seus seguidores repete a mesma oposição da esquerda em geral: o polo teórico radical, socialista e determinista X o polo prático reformista, liberal e voluntarista. Porém, com essa "racialização" recente do campo político (que inclusive o próprio Douglas vem colaborando através de seus livros sobre a temática racial), se sobrepõe uma nova camada: a crítica estrutural é apreendida como eurocêntrica e racista ("os senhores aristocratas da Casa Grande que pensam na longa duração e só falam em economia e luta de classes") e a crítica ideológica vem a ser percebida como identitária, individualista ou liberal ("a plebe" que não vê que seus infortúnios tem uma história maior e que explica, inclusive, a possibilidade de sua crença recente em novos profetas como bell hooks, Geni Nunez, Nego Bispo e outros intelectuais brasileiros, do presente ou do passado, que são convocados na luta contra as misérias do "colonialismo" do campo político até o sexual: todas essas referências se infundem em uma atitude mística secularizada que une, em graus variados, anticapitalismo com um retorno das tradições, fundando novas "comunidades imaginadas" a partir de processos diacríticos que permitem criar novas sínteses onde antes havia separações).
V. A sociologia ordinária das ideias: as classificações nietzscheanas das atitudes alheias
8. Nesse tipo de disputa intelectual, os termos postos por Nietzsche para caracterizar os hábitos intelectuais e, de modo geral, a vida moral, não sem uma perversa ironia, se aplicam na tipificação dos grupos em contenda, inclusive na sua relação com o tempo: o "senhor" marxista ao ver e viver na longa duração das estruturas tem um tipo de "amor fati" que lhe permite ver a tragicomédia da "repetição da história", como diz o jargão; já o "escravo" (que aqui coincide tristemente com indivíduos apontados como identitários), preso ao imediato e ao presentismo, que busca a mudança e odeia o mundo em que se encontra, possui um ressentimento ante a "cosmovisão" da Casa Grande (o eurocentrismo, o monoteísmo, a "monocultura", a luta de classes dentre outros rebentos) e não aceita a interdependência estruturante entre os dois "grupos" na produção da possibilidade de sua crítica presente à própria "Casa Grande". Vale dizer que o recurso a metáforas históricas pouco ajustadas às condições objetivas presentes não colaboram na produção de uma gramática política comum já que o referente da crítica sempre escapa.
Pessoalmente, não gosto dessa tipificação nietzschana e muito menos dessa terminologia política maniqueísta, mas, infelizmente, essa é a estrutura de recepção ou a "estrutura de sentimento" de muita gente versada em filosofia ou na luta política e que vai estar na base da apreensão inconsciente desse debate, opondo as "elites" e o "rebanho" ou, nos termos da luta política, denunciando diretamente alguns intelectuais como "capitães do mato", representantes da Casa Grande, vindo tais acusadores se posicionarem, por oposição, no polo oposto, como representantes do saber dominado-ancestral (não é inútil ver que essa concepção é tricotômica: mesmo não sistematizada, ela prevê senhores, servos e escravos. Apesar de normalmente ser aplicada a policiais negros, também vemos a categoria "capitão-do-mato" sendo usada para falar de políticos de minorias que vão para direita).
9. Dito isso, podemos ver no ensaio de Douglas um texto que cumpre sua função: produzir debates e, como subproduto, engajamento no perfil da Boitempo, dividir opiniões da esquerda reatualizando e intensificando a cisão entre Luta de Classes (econômica) e Lutas Étnicas (simbólicas), cisão esta difícil de ser superada graças a temporalidade, a urgência e a evidência do sofrimento produzido por cada tipo de luta política. Infelizmente, quando se trata de tal tipo de crítica ideológica, ela não atinge só as ideias do intelectual em questão, mas, como se diz de modo banal hoje em dia, os afetos dos seus entusiastas e dos seus detratores e críticos. Afinal de contas, o que está em jogo são projetos de crítica à esquerda do mundo contemporâneo, críticas essas que são ambas resultantes desse mesmo mundo e que espelham janelas sociohistóricas que cronicamente dividem a esquerda.
VI. A alma-de-classe e o corpo-território: o dualismo reformado
10. Ora, como é comum ocorrer na vida cotidiana mundana e intelectual, os erros vêm aos pares e, assim, Douglas acaba pesando a mão tanto no tratamento do mito como na subestimação da função política dessa "religião das classes médias", apesar de que seu ponto racionalista deva ser considerado com cuidado: por mais que uma teoria política reverbere e doe forma a um sentimento difuso de certas categorias sociais, sua objetivação não vai suprimir suas falhas de concepção doutrinárias que podem estar mais ou menos explicitadas em sua arquitetura (ainda mais quando se trata de uma teoria que reinvidica para si a organicidade da oralidade, do vivido, contra a artificialidade da letra morta).
11. A posição crítica do jovem filósofo paulista diante da posição cosmológica do velho negro nordestino que abandonou a temporalidade da luta de classes pelo tempo eterno da luta divina, não reencena a luta entre o socialismo romântico e o socialismo científico? Entre os deuses concretos do território, do sangue infuso na terra e aquele deus aéreo, abstrato e cosmopolita, o Capital, e seu eterno servo, o Trabalho? A questão não posta por Douglas e que seus leitores críticos logo captaram é: qual é o tipo de solidariedade e de fundamento legítimo para as lutas sociais no presente? Douglas responde implicitamente: a análise material universalista e a solidariedade classista. Já Nego Bispo apontaria: a comunidade cosmológica situada. Essa é a questão que reatualiza a “ilusão socialmente necessária” que amputa a classe do corpo que faz a luta de classes: de um lado, o corpo sem classe; de outro, a classe sem corpo. (Esquematizando a sentença anterior: pressuposto → disposto → posto ↔ pressuposto ou em termos, fenomenológicos, invisível→visível ↔ invisível). Não há como ficar "fora dessa" contradição. É ilusório crer que há um lugar fora desse mundo – e aqui Nego Bispo e outros "pensadores do vivido", brasileiros ou vindos do interior da floresta negra alemã, que há séculos põem em funcionamento o mesmo sistema conceitual de um anticapitalismo romântico, acertam na crítica do objetivismo desincorporado do racionalismo, em geral, e do marxismo, em particular. Apesar disso, ainda seria preciso salientar que tanto o mito e o corpo-território quanto a posição arquimediana da crítica econômica "fora do mundo das necessidades identitárias" pressupõem um lugar (profundo ou etéreo, terrestre ou aéreo) que não se encontra sujo pela história do mundo, que não é mediado por aquilo que eles criticam. O fundamento incólume da crença.
12. Em última instância, Douglas se entrega pelo tom do seu discurso se reinscrevendo na própria estrutura moralista (ou "identitária") que ele busca enfrentar. É como se ele estivesse dizendo: "meu grupo é outro. Não faço parte daquele grupo que não sabe exercer sua razão autonomamente e que precisa de muletas míticas, mestres ou guias para fundamentar sua luta política". Talvez o problema por ele apresentado pedisse mais do que a afirmação de sua identidade grupal. Se diante de tal problema político o silêncio não é possível, talvez fosse melhor apontar para necessidade de produção de outros princípios diacríticos que permitissem a criação de uma nova forma de coletividade política tranversal. Contudo, os erros vêm aos pares – e a síntese esperada desse conflito entre a classe e o seu corpo ainda não veio.
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