Sempre que se encontrar diante da questão "qual o sentido disso?", refaça o questionamento substituindo "sentido" por "função". Ao se questionar pela função, o pensamento supera o risco de perder o sentido da realidade, de cair no niilismo, e se reencontra com aquilo que se esconde quando o sentido das coisas é diretamente questionado.
A descoberta da função, apesar de implicar um caminho mais árduo, entrega em sua conclusão o mesmo motivo implícito na busca pelo sentido, a finalidade de existir do objeto questionado.
No entanto, a finalidade descoberta é de outra ordem que aquela da vontade subjetiva diante do mundo: se a busca pelo sentido geralmente culmina em relativismo e subjetivismo (no encontro da falta de sentido fundamental, constatação da arbitrariedade de um mundo onde o adaptado nem sempre é o justo, da violência no princípio da ordem, problema que periodicamente motiva novas tentativas filosofantes de teodicéias para a explicação do mal no mundo), a compreensão da função, por seu caráter sistemático, ao mesmo tempo que apreende a transitoriedade dos objetos (momento de descoberta de sua relatividade) acessa também a estabilidade das relações nos quais os objetos adquirem seu sentido, isto é, a gênese da direção dos seres, assim, reencontra com a finalidade - a necessidade da produção intencional da ordem do mundo implicada na busca primitiva de sentido - porém, criando as condições para o espírito compreender uma finalidade superior, isto é, que não está subsumida na intencionalidade consciente vigente na experiência ordinária do mundo; uma finalidade sem consciência, finalidade natural.
Desse modo, a pergunta pela função instaura um questionamento extra-ordinário, _imprevisto_, que faz surgir uma ordem de realidade (isto é, um sistema de relações) que não está dada para a visão cotidiana do mundo. A função surge contra o pensamento ordenado pela evidência dos olhos.
A pergunta pelo sentido está para a função tal como a alquimia está para a química.
Mas seria necessário toda uma outra formação cultural para lutar contra os "ídolos do sentido", contra a espontaneidade substancialista. O niilismo - religião negativa -, em alguma medida, já é uma crítica ao substancialismo ao encontrar o vazio ou a história (ambos nomes da "relação") estruturantes das coisas naturais ou sociais. O problema é que ele se torna um giro sobre si próprio na forma do subjetivismo: "se o mundo não tem sentido, eu sou quem dá sentido ao mundo". Porém, parte da depressão também se encontra diante dessa mesma questão: “se o mundo não tem sentido, em que eu poderei crer, me apoiar? Eu sinto um vazio, por mais que eu me esforce, quando _paro e penso_, não encontro sentido na minha vida”.
Apesar de não parecer, o niilismo do pensador-filósofo e do melancólico são modos de uma relação ainda substancialista com o mundo (lembremos que o corpo é um sistema cognitivo pré-científico e a consciência nada mais que uma de suas disposições), relação pré-científica e com maior afinidade ao modo de ser da vida prática, isto é, a vida prática de certas classes sociais. A perda do sentido, um dos problemas filosóficos centrais da modernidade como exemplificado na tradição existencialista, é ainda uma forma negativa de idealismo e de deslocamento da crença na substância: se passa da fé em Deus para a fé no Eu. (Tal deslocamento metafísico se vulgariza pelo existencialismo da resiliência que diz: “não importa o que o mundo fez com você, mas o que você faz com o mundo”).
No caso das relações frente ao niilismo, trata-se na maioria das vezes dos estamentos intermediários ou das classes médias: grupos letrados detentores do poder de conhecer o mundo e, principalmente, _o mundo passado guardado na história escrita_ - poder simbólico - sem ter o equivalente poder de moldá-lo - poder econômico/político. Tais classes possuem uma afinidade eletiva com o niilismo do filósofo ou do depressivo (não sendo casual o apelo que as religiões orientais possuem para tais classes no capitalismo contemporâneo, principalmente as doutrinas que defendem a nulidade do mundo da experiência ou mesmo “o caminho do meio”, o caminho (do) _médio_).
A atitude pressuposta no pensamento funcional ou relacional (pensamento que supera, pensamento superior ao niilismo das classes pretensiosas), assim, surge numa ruptura frontal com o _sentido prático_ da vida, com a atitude que pensa e aceita as coisas em sua autonomia visual, conforme elas aparecem aos olhos separadas no espaço (a esquerda ou a direita, perto ou longe) e no tempo (agora, depois, antes). Por se constituir através de uma _crítica dos sentidos_, o pensamento funcional ou científico se torna um candidato em desvantagem para responder a "questão pelo sentido", a "necessidade de sentido" fundamental para justificar a existência daqueles que perderam a sua antiga função social no mundo e ainda não se encontram preenchidos por sua nova posição (histerese).
Não é uma conversão de pensamento que vai afagar essa necessidade corporal por justificação da existência individual, mas o pertencimento a um grupo que doe novos símbolos orientadores da vida. Mesmo o cientista portador da razão funcional ou relacional, se ele não encontra um grupo de agentes com disposições correspondentes para tal modo de fazer-ver a verdade profunda do mundo, a solidão e o sofrimento serão experiências que também se farão presentes. Ironicamente, o conhecimento da função perde seu sentido quando ele não encontra as suas condições de funcionamento.
(por vezes a ideia de função implica um determinismo, que permitiria recuperar certa crença metafísica numa natureza estável. Basta pensar que a função é probabilística, ao invés de dizer "isso funciona _para_ aquilo", dizer "isso funciona provavelmente para aquilo).

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