Seção de um capítulo de Cyril Lemieux intitulado O crepúsculo dos campos no livro Bourdieu, teórico da prática.
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DO CAMPO AO ESPAÇO DE SERVIÇOS
Foi num texto publicado em 1996 sob o título Sur la Télévision – transcrição de dois cursos do Collège de France veiculados no mesmo ano pelo canal de televisão Paris Première – que Bourdieu talvez tenha trazido mais claramente à luz o que implica, se assim manter-se coerente consigo mesmo, uma concepção restritiva do conceito de campo. Os desenvolvimentos contemporâneos da actividade jornalística em França deram-lhe, de facto, a oportunidade de se interrogar, talvez pela primeira vez, sobre os mecanismos sociais através dos quais os campos podem sofrer retrocessos para a heteronomia, na medida em que a sua existência, enquanto campo, fica assim comprometido. Ao não hesitar em abrir tal reflexão, simétrica àquela realizada três anos antes em As regras da arte sobre o nascimento dos campos, Bourdieu assume o estatuto histórico da forma "campo" até sua última consequência: os campos devem ser reconhecida como mortal. Recordemos as linhas principais da manifestação: muito mal dotado historicamente de meios de sanção interna, o campo jornalístico é aquele que, de todos os campos de produção cultural, sempre ofereceu menos resistência às forças do mercado e ao " pólo comercial". . Se, desde o início da década de 1980, essa vulnerabilidade continuou a aumentar, é porque uma nova instituição particularmente submetida à lógica comercial, a televisão, se impôs simbólica e economicamente aos meios de comunicação mais antigos e, sobretudo, à imprensa escrita. Essa revolução parcial certamente não põe em questão inteiramente a axiomática do jogo jornalístico. Mas conduz a uma profunda perturbação na balança de poder, na medida em que os produtores mais apegados à defesa dos valores autónomos e dos princípios da profissão perdem cada vez mais poder efetivo face à “mentalidade de auditório” e às exigências do infoentretenimento. O ponto fundamental, porém, é que essa revolução parcial tem efeitos sociais decisivos em todos os outros campos e, portanto, também no campo de poder que juntos eles formam. Com efeito, na medida em que os jornalistas "operam uma selecção e uma construção" da realidade a partir de "óculos" muito específicos que os levam a privilegiar o sensacional e o espectacular (1996, p. 18), tendem não só a consagrar os comportamentos que melhor correspondem aos critérios que procuram mas também, por isso mesmo, suscitar nos diferentes âmbitos que medeiam, novas estratégias que consistem em adequar cada vez mais a sua prática produtiva às expectativas jornalísticas. Este tipo de lógica adaptativa é a chave para interpretar a subversão que o campo jornalístico inflige aos processos de consagração e aos princípios de hierarquização interna de outros campos (incluindo os mais autónomos como a ciência ou o direito) ao atrair para si as empresas e agentes que, em cada um desses campos, são os mais “propensos a ceder à sedução dos lucros 'externos' porque são menos ricos em capital específico” (1996, p. 89). É com a ajuda deste tipo de “cumplicidade” interesseira que os meios de comunicação iriam assim minar gradualmente a possibilidade de produzir discursos autónomos e obras “autênticas” em domínios que até então tinham sido a vocação e o privilégio29.
É possível levar adiante essa intuição bourdieusiana do desaparecimento ou pelo menos da profunda mutação da forma “campo” na era contemporânea? Para tentar isso, deve-se notar, antes de tudo, que o diagrama esboçado em On Television sugere que é o campo do poder como um todo, e não um campo em particular, que hoje se encontra em perigo como campo . Ao perder sua autonomia sob a pressão do campo econômico, o campo jornalístico provoca, de fato, a regressão à heteronomia de todos os outros campos. No final deste processo, se o extrapolarmos, todos os campos terão visto o seu pólo heterônomo suplantar mais ou menos completamente, inclusive ao nível das relações de poder simbólico, o seu pólo autónomo e, portanto, terão feito com que este desapareça como verdadeiramente autónomo polo 30. Os campos, então, deixarão de ser campos para se tornarem o que se poderia chamar de espaços de serviço, nos quais os efeitos do campo serão sempre menos numerosos e importantes do que os efeitos ligados à demanda externa. O campo do poder será, nesta hipótese, inteiramente dominado pelo campo econômico, único campo cujo princípio de hierarquização interna se baseia na capacidade diferencial dos agentes em satisfazer demandas externas e que, por isso, terá conseguido impor seu interesse específico e seu modo particular de illusio a todos os outros campos31. Essa economia do campo de poder, note-se, de forma alguma assume a forma de uma transformação de campos em aparelhos. Não introduz, de fato, uma limitação da competição entre os agentes pela restauração de uma autoridade superior que lhes ditaria, de forma autoritária, a conduta a ser seguida. Nisso, o “processo de institucionalização da anomia ao fim do qual ninguém pode se colocar como senhor absoluto e possuidor do nomos33” específico desse campo fica totalmente incólume, em cada campo. É apenas – mas já é muito – a possibilidade de definir autonomamente o interesse específico da atividade que põe em causa a passagem da forma do campo à do espaço de serviço: assim como a arte já não pode ter a arte como finalidade única, assim como a ciência, o direito, o esporte ou a religião não podem mais ser justificados por si mesmos. Essas atividades devem doravante ser usadas para algo diferente do seu próprio exercício. Eles têm a obrigação de atender a demanda de clientes, usuários ou financiadores.
É importante neste ponto, para seguir até o fim as intuições de Bourdieu, não pensar na dominação crescente que o campo econômico exerce sobre o campo do poder como um processo unilateral. Como dissemos, a definição do que é um campo implica favorecer uma abordagem interna ao universo dos produtores. Isso não deixa de ser verdade quando se trata de compreender a mutação dos campos em espaços de serviço: é no interior de cada campo que se encontram os agentes mais interessados em acelerar essa mutação, ou seja, aqueles que a sua posição no campo e o exercício da atividade tendem a relativizar , em benefício dos modos externos de reconhecimento, o prestígio simbólico de que gozam os princípios da hierarquia interna. Para tais agentes, a pressão que os campos econômico, jornalístico e/ou administrativo exercem cada vez mais sobre o campo em que atuam, tende a ser recebida como uma oportunidade favorável: ao desenvolverem estratégias de colaboração com esses poderes externos, podem esperar, de fato, , para reduzir, se não inverter, o equilíbrio simbólico de poder que atualmente os subordina aos de seus pares mais dotados de capital específico. Essa formulação de suas intenções certamente parece emprestar muito ao cálculo cínico e à busca da maximização do lucro. De fato, há um problema recorrente na sociologia de Bourdieu. Para sair dela, é preciso fazer o esforço de restaurar também, ao lado da dimensão estratégica e realista que anima esses agentes, a dimensão crítica que os carrega. A empreitada em que se lançam consiste, de facto, numa verdadeira revolução simbólica que consiste em colocar no centro da definição legítima da actividade própria do seu domínio a necessidade de a justificar face às expectativas de quem financia (clientes, contribuintes, acionistas ou patrocinadores, conforme o caso34). É, em outras palavras, contra o fechamento do campo sobre si mesmo que esses agentes se indignam. Ainda que se reconheçam em sua história e reverenciem seu passado, é o próprio princípio de sua constituição como espaço de produção responsável apenas por si mesmo que contestam.
UM DESTINO TRÁGICO
É notável que esse tipo de indignação e protesto nunca foi estranho ao próprio Bourdieu, quando considerou o caso do campo político e, mais amplamente, do campo do poder, incluindo o confinamento mental dos membros e sua incapacidade de considerar seriamente o ponto de a visão de “fora do campo” estava na raiz de suas posições mais rebeldes35. Essa sensibilidade manifesta a ambivalência normativa de Bourdieu em relação à forma do "campo". Se, de fato, qualquer campo é palco de uma competição desigual (pela desigualdade do volume de capital específico de cada jogador) e se, além disso, o jogo que aí se realiza só é acessível a uma minoria (pela desigualdade de capital que cada um herdou), o fato é que qualquer campo reúne, por definição, o "melhor" de uma atividade e leva a trazer essa atividade à sua mais alta e pura expressão – e ainda melhor, se seguirmos Bourdieu, que a autonomia do campo em questão estará bem defendida. Assim, o mesmo espaço lúdico que contraria flagrantemente os desígnios democráticos de igualdade (incluindo, e talvez sobretudo, quando se apresenta como "meritocrático") acaba por ser o espaço onde, por excelência, se produzem nas sociedades capitalistas discursos e trabalhos relativos para fins não económicos e considerados, como tal, de valor "inestimável", isto é, impossíveis de atribuir de imediato a um princípio de utilidade material ou de converter integralmente em equivalente monetário. O resultado é uma antinomia entre um ideal de justiça social que a forma do “campo” frustra quase por completo e objetivos de resistência à reificação do mundo social face à qual se revela o instrumento mais precioso. Se defender os campos em seu princípio constitutivo exige relativizar o objetivo da igualdade, enfraquecê-los contribui para aniquilar as últimas resistências ao capitalismo com as quais as sociedades modernas podem contar.
Pode ser que essa contradição esteja no próprio cerne da dinâmica histórica que viu os campos surgirem e que hoje os vê transformar-se em espaços de serviço. Pelo menos é esta a interpretação que iremos propor. O primeiro fenômeno do qual partiremos pode ser apresentado sob o termo democratização se aceitarmos entender por isso uma consideração de pura morfologia social: a progressiva ampliação do recrutamento social das elites – que está ligada, em grande parte, à progresso na escolaridade. Tal fenômeno se reflete no aumento constante – observável, no caso francês, desde pelo menos meados do século XVIII – do número de indivíduos que se sentem dotados de habilidade e talento para julgar por si mesmos as coisas da religião. , política, ciência ou arte, e considerar-se capaz de participar diretamente da produção dos discursos e das obras que os integram. Os campos teriam nascido desse empurrão “democrático”: novos produtores autodeclarados, que não encontravam reconhecimento nos órgãos oficiais de consagração e nos círculos do poder político, sempre puderam contar com mais facilidade com o público consumidor, cujo número não parava de aumentar, ser reconhecido de uma nova maneira. A partir daí, uma autonomização dos princípios do reconhecimento, nascida do confronto entre duas autoridades concorrentes de consagração, o Estado e o mercado, nenhuma das quais conseguiu monopolizar o processo de hierarquização dos produtores. Isso porque souberam opor ao princípio da consagração aristocrática – originariamente vinculado ao mecenato e à proteção pessoal dos poderosos – o princípio alternativo do reconhecimento pelo mercado que, nos diversos campos, os produtores poderiam se emancipar. supervisão. Inversamente, foi porque souberam contrapor aos veredictos do mercado um princípio de consagração aristocrática de que se apropriaram37 que conseguiram autonomizar-se face à esfera comercial.
A mesma dinâmica pode ser lida a partir de um segundo termo: a extensão do capitalismo, ou seja, a integração nos circuitos de produção e troca de mercado de novos contingentes de produtores e consumidores e, como corolário, a comercialização em larga escala de trabalhos e atividades que antes escapavam ao império da mercadoria38. Se, de fato, a democratização, no sentido em que acabamos de definir o termo, implica a divisão do trabalho social no seio das elites, ou seja, a partilha (desigual) do poder entre um grupo de mais dominantes, mais numerosos e com mais e atividades e funções mais diferenciadas, implica também, ao mesmo tempo, o aumento constante dos públicos consumidores, ou seja, do número de indivíduos interessados em graus diversos em consumir os discursos e as obras produzidas nos diversos campos39. Daí decorre que os novos entrantes em um campo podem estar inclinados a basear suas estratégias de subversão na conquista de novos mercados consumidores, mesmo que isso signifique oferecer seus produtos a clientes cada vez menos "legítimos" (porque são privados de e/ou capital econômico) e ter que fazer um esforço especial para interessá-los, consistindo em se adequar aos seus gostos e expectativas ao invés de tentar impor os seus próprios40. Assim, quanto mais os campos integrarem um grande número de novos produtores, mais seu pólo heterônomo tende a se fortalecer. O que equivale a dizer que os campos têm alguma chance de se manterem como tais apenas restringindo de uma forma ou de outra o número de seus membros e, portanto, aumentando constantemente sua taxa de inscrição. Tais estratégias elitistas ou conservadoras, que tendem a ser obra dos que dominam os campos, no entanto se mostram cada vez mais difíceis de justificar, pois à medida que a redemocratização continua, mais e mais indivíduos batem às portas dos campos e afirmam ter habilidade e talento para participar legitimamente da atividade ali realizada. O próprio princípio de fechamento e autonomia na base de tais espaços de jogo passa, assim, a ser criticado. É, como já foi sugerido, a existência dessa base crítica que serve de trampolim moral para a atual transformação dos campos em espaços de serviço.
Tal esquema de transformação sócio-histórica faz com que a forma “campo” apareça como fundada em uma contradição insuperável. Ou, de fato, os campos permanecem relutantes em aumentar dentro de si os princípios da hierarquização heterônoma, e sua legitimidade só pode então declinar à medida que prossegue a democratização das sociedades modernas – que está ligada, em particular, à crescente escolarização de seus membros e à consequente generalização de sua pretensão de participar, de uma forma ou de outra, do campo do poder. Ou os campos se abrem ao reforço de tais princípios, e é então a sua existência como tal que fica comprometida, e que se inicia a sua transformação em espaços de serviço. Ao tomarmos consciência deste dilema, para o qual nos convida a leitura cruzada das Regras da Arte e Sobre a Televisão, somos conduzidos a uma visão dos campos diametralmente oposta à que implicaria uma utilização universal. noção: é como uma realidade histórica transitória que os campos nos são subitamente revelados. Nascidos das contradições internas próprias das sociedades capitalistas nascentes, eles se mostram fadados a desaparecer sob o próprio efeito dessas contradições, tão logo sejam levados ao seu clímax através de um duplo e inextrincável processo de democratização e extensão do capitalismo. A forma “campo”, nisso, pode ser reconhecida como uma noção habitada pela tragédia da história. Que tragédia é esta? Daquilo que se deve ao facto de contribuir, como por um espécie de astúcia da história, à mercantilização de atividades com fins menos econômicos e à sua submissão a um princípio de utilidade material.
Mas talvez haja uma forma de se libertar do pessimismo moral e político que essa perspectiva implica: é voltar mais uma vez aos estudos da etnologia cabila. Deles, de fato, podemos tirar a lição de que o desaparecimento dos campos não é equivalente (porque não pode ser equivalente) ao dos jogos sociais. É uma forma particular de organização das atividades produtivas que vemos hoje saindo do palco da história. Os fundamentos da prática humana permanecem.
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