Um conjunto de clichês de esquerda que rolaram pela pandemia podem ser observados ao longo das duas horas de filme - o que me vem a memória agora é só aquele que diz: “não haverá novamente o normal”. Dei uma olhada em críticas ao filme que apesar de muito assistido na Netflix não satisfez a audiência especializada que, quando muito, viu nele uma panacéia de topos do momento: fuga da alienação, racismo, construção de confiança, teorias da conspiração, guerra mundial, catastrofismo e uma aparente incerteza do que esperava os personagens... Mesmo destacando tudo isso, ninguém pelo que vi falou algo que não deixou de saturar meu olhar: a presença contínua durante os minutos iniciais do tom azul marinho, do quarto da casa do casal até o quarto da casa alugada na forma de ondas do mar... Olhando dessa perspectiva se torna compreensível que, desde o princípio, todos ali já estavam mergulhados e afogando-se numa estrutura simbólica comum que lhes dava a garantia que tudo continuaria a ocorrer como a sua ficção coletiva mandava antecipar (eis um ponto que os lacanianos ensinaram bem a observar).
Continuando ainda nessa chave, a rápida aproximação do navio da praia que foi visto e "levado a sério" unicamente pela filha caçula não deixa de soar como uma reedição do problema de outro filme (melhor recebido que este): "Não olhe pra cima". Caindo sobre as cabeças ou perfurando o horizonte que se abre aos nossos olhos, aquela velha lei da microssociologia parece não perder seu vigor: as pessoas tendem a evitar ao máximo as saída conflituosas para uma situação.
Daí, alguém que viu o filme poderia me responder: e o conflito racial velado entre a família branca que alugou a casa e os donos negros dela? Nesse ponto, a inserção da familia negra na narrativa tem um pouco de Jordan Peele às avessas, o que parece um tanto tragicômico dada a intenção geral do diretor do filme - configurar os estranhos donos diante dos hóspedes como seres negros e possuidores de uma ingênua e irresistível verdade da situação, diante de brancos alienados não parece a reedição intelectualizada do contato de alguns com as forças essenciais que regem o curso do mundo?...
De todo modo, a garota negra numa visada fundamental daquela família disse ao seu pai o que cada um daqueles estranhos em sua casa eram: os homens (o pai professor universitário e o filho adolescente) dois pervertidos e as mulheres duas pessoas infelizes com suas vidas (como se os filhos tivessem nos pais a imagem de seu futuro)...
Fico sempre encabulado com os modos que estruturas tradicionais de conhecimento operam mesmo nos filme que se pretendem mais críticos delas, chega a ser decepcionante. Como frisou minha companheira, as mulheres ao longo da trama se defrontam sempre com obstáculos naturais enquanto os homens sempre enfrentam obstáculos humanos. Isso se torna mais desanimador ainda quando vemos a presença enfadonha de cervos que só eram vistos pelas três mulheres...
Mas, como mesmo em meio ao falso pode ter uma fagulha de verdadeiro, o único momento que retira a capa de hipocrisia daquelas duas famílias que resistem em aceitar o fim do mundo é quando os personagens de Julia Roberts e Mahershala Ali dançam e se abraçam... Mesmo que todas as aparências apontem para a escolha da filha caçula de procurar uma saída individual para “o dilúvio” - que põe fim ao filme - é sempre importante lembrar que ela só faz isso após contar uma história sobre um crente raivoso e um Deus sábio, argumento típico de democratas frente a conspiradores direitistas: “a ciência é um dos instrumentos de Deus”... Chega a ser ridículo.
Por isso, acho que aquele momento de traição não-realizada entre o negro e a branca seria o que haveria de melhor no filme: ele poderia apontar para um novo tipo de união menos oficiosa e artificial que aquela expectativa de sustentar as ilusões de uma “família margarina” mesmo no fim...
...Depois de escrever esses parágrafos fica claro pra mim como esse filme é ruim, igual a essas outras distopias realistas de esquerda que contra o conspiracionismo de direita - e que tem versões cinematográficas bem interessante, como tenho escrito sobre as obras de Shyamalan - dizem sempre:
“não há ninguém no controle”…
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