Ao lado do capital económico e cultural, o capital social é uma das três principais espécies de capital que, segundo Pierre Bourdieu, permite a construção de um espaço social [PB 1986h]. A expressão designa a “soma de recursos, reais ou virtuais, que revertem para um indivíduo ou grupo porque possui uma rede duradoura de relacionamentos” [Respostas: 167]. Esta definição de capital social contrasta com outras conceptualizações sociológicas. A expressão foi, aliás, utilizada diversas vezes antes de Bourdieu [Ponthieux 2006], na maioria das vezes de forma pouco sistematizada. Já na década de 1920, alguns falavam de capital social sobre “as substâncias tangíveis que mais importam na vida quotidiana das pessoas, isto é, boa vontade, camaradagem, simpatia e relações sociais entre indivíduos e famílias que formam uma unidade social” [Méda 2002: 37 ]. Mais recentemente, a noção de capital social tornou-se amplamente difundida graças aos esforços de Robert Putnam [2000], retransmitidos por instituições como o Banco Mundial. Segundo ele, capital social refere-se à existência de redes sociais, normas de reciprocidade e confiança [Putnam 2000].
A concepção de capital social defendida por Bourdieu faz parte de uma teoria geral do capital. Tem origem nas obras do período argelino. Como muitas vezes apontou a posteriori, nas sociedades tradicionais, “uma das únicas coisas que podem ser acumuladas é um capital de relações, de dívidas, de obrigações morais ou reais, por vezes legalmente garantidas” [Sociologia geral 1: 526]. Até ao início da década de 1970, Bourdieu utilizava as expressões “capital social” e “capital simbólico” indistintamente para designar as vantagens e os constrangimentos que resultam da pertença a um grupo. É a sua investigação realizada sobre a classe dominante que lhe permite explicar as especificidades do capital social. Nas sociedades diferenciadas, as desigualdades sociais resultam em grande parte de lacunas no património económico e cultural. Ainda assim, o que a linguagem comum chama de “relacionamentos” também é importante. Entre indivíduos comparáveis em termos de capital económico e de capital cultural, o capital social, como capital de relacionamentos, pode fazer a diferença [PB 1971g: 69]. A sua acumulação começa na família, “o capital social está intimamente ligado à antiguidade na classe através do reconhecimento do nome e da extensão e qualidade da rede de relacionamentos” [La Distinction: 138]. Depois, frutifica graças a diversas formas de cooptação que vinculam o destinatário a grupos: passagem por estabelecimentos consagrados, como as Grandes Écoles; a entrada nos grandes órgãos do Estado, que criam uma forma de solidariedade entre quem é ou foi; adesão a clubes ou organizações que erguem barreiras à sua entrada. Estas diferentes afiliações tornam possível, em última análise, aumentar dez vezes o retorno dos recursos económicos e culturais. O volume de capital social disponível para um indivíduo depende do número de posições que ocupa simultaneamente em diferentes campos, bem como da posição desses campos na hierarquia que estrutura a classe dominante. Como escreve Luc Boltanski [1973: 14], “o poder de um determinado indivíduo não é irredutível ao poder inscrito na posição que ocupa ou à soma de poderes resultantes da adição dos poderes fragmentários relacionados em cada uma das suas posições: a matemática do poder usa menos a adição do que a multiplicação, a subtração do que a divisão”.
Bourdieu usa a expressão “capital social” com moderação. Sendo um multiplicador de recursos, nunca é, de facto, “completamente independente” [PB 1980a: 3] do capital económico e cultural e pode, portanto, ser considerado secundário aos seus olhos. Se um grupo está unido, não é simplesmente porque fornece capital social aos seus membros, mas também porque eles possuem um certo número de propriedades que os unem objetivamente no espaço social. Assim, não existe capital social que não seja também capital económico, capital cultural ou produto de ambos. Ter frequentado uma Grande École constitui indissociavelmente capital académico e capital social, tal como ser diretor de uma empresa equivale a exercer uma forma de controlo sobre uma ferramenta de produção e a fazer parte de um grupo. O capital social continua a ser capital “adicional”. Facilitador de transações económicas, intelectuais, políticas, etc., também envolve “trabalho de estabelecimento e manutenção” que assume mais significado para certas categorias sociais do que para outras [PB 1973a]. Falar sobre capital de relacionamento pressupõe que esses relacionamentos são importantes. O capital social pode então ser utilizado para explicar a desigualdade de desempenho de indivíduos de diferentes classes sociais, relacionando os lucros específicos que podem obter em diferentes universos com a distribuição de capital das relações entre classes.
A forma como Bourdieu encara o capital social – capital no sentido literal do termo – apresenta diversas vantagens em comparação com outras teorizações das quais tal capital tem sido sujeito. Contrasta com a normatividade do trabalho de Putnam: a definição do capital social que mobilizam permanece vaga. Este trabalho reduz o capital social a uma medida da intensidade da vida social, entendida através de indicadores tão gerais como a taxa de participação nas eleições ou o número de membros de grandes associações nacionais; universalizam o ponto de vista do seu autor – a sua crença na democracia liberal americana – para elogiar a “civilidade”. Enquanto James Coleman [1988] – sobre quem Bourdieu ironicamente escreve que é “responsável” por lançar a noção de capital social “no mercado altamente protegido da sociologia americana” [The Social Structures of the Economy: 12] – considera que o capital social é um bem público, segundo Bourdieu pode ser objeto de monopolização. Em todos os grupos, existe a tentação de se apropriar do capital colectivo, tal como os procedimentos podem ser planeados institucionalmente para se protegerem contra esta eventualidade. Embora a maioria dos teóricos do capital social, com a notável excepção de Nan Lin [1995], careça de uma teoria de grupos ou classes, Bourdieu coloca-o em relação a outras espécies de capital das quais os agentes sociais podem dispor.
Falar de “capital” social implica, de facto, questionar tanto o volume, a composição e a utilização de um recurso mais ou menos raro, considerado relevante num determinado espaço, como situá-lo face a face com outros recursos (econômicos, culturais ou simbólicos). O capital social conforme definido por Bourdieu é, ao mesmo tempo, um recurso cuja posse está ligada ao pertencimento a um ou mais grupos, cujos membros estão unidos por relações objetivas, e produto de estruturas relacionais, dentro das quais está distribuído de forma desigual. Inspirados pela definição que Bourdieu dá de capital cultural [PB 1979b] e contando com o trabalho que dedicou à classe dominante, poderíamos distinguir entre 1. capital social herdado e 2. capital social parcialmente incorporado (relações familiares e bem-estar social), 3. capital social objetivado (filiação a organizações, lista de endereços) e talvez também um 4. capital social institucionalizado, no caso de possuir certos títulos que oferecem reconhecimento e crédito. Esta é sem dúvida a razão pela qual Bourdieu afirma que “o capital social, como capital das relações, está espontaneamente predisposto a funcionar como capital simbólico” (Sobre o Estado: 303) [em que ser é ser reconhecido].
François Denord.
Referências
BOLTANSKI L., 1973, « L’espace positionnel : multiplicité des positions institutionnelles et habitus de classe », Revue française de sociologie, n o 14, p. 3-26. – C OLEMAN J., 1988, « Social capital in the creation of human capital », American Journal of Sociology, n o 94, suppl., p. 95-120. – L IN N., 1995, « Les ressources sociales : une théorie du capital social », Revue française de sociologie, n o 36, p. 685-704. – M ÉDA D., 2002, « Le capital social : un point de vue critique », L’économie politique, n o 14, p. 36-47. – P ONTHIEUX S., 2006, Le Capital social, Paris, La Découverte. – P UTNAM R., 2000, Bowling alone : the collapse and revival of american community, New York, Simon & Schuster.
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