(tradução nossa)
Willian Labov (1927) é o fundador da sociolinguística interacionista. Aluno de Uriel Weinrich, ele escreveu seus primeiros trabalhos na área da dialectologia estrutural. Contrariamente a linguística estrutural tradicional, esta abordagem procurou a integração no modelo linguístico a existência de variáveis linguísticas socialmente e espacialmente condicionadas. Desde sua primeira pesquisa, em Martha's Vineyard em Massachssets, Labov mostra que a distribuição de variáveis linguísticas depende de uma analise adequada da estrutura social da comunidade. A partir do caso de Martha's Vineyard, ele constatou uma clivagem entre aqueles que desejam permanecer na ilha e aqueles que, em razão de sua trajetória social, desejam partir [Labov, 1976]. De modo mais decisivo, em sua segunda pesquisa em Nova York, Labov não se contentou em só verificar a existência d euma covariação linguística e social mas também fez aparecer a existência de um segundo eixo de variação, de ordem estilística, e diretamente ligada ao grau de formalidade da interação. Uma mudança de estilo pode ser obtida graças a manipulação da relação de pesquisa (para ppbter o estilo formal ou ao contrário o estilo familiar [coloquial]). Esse segundo eixo toma mais e mais importante no trabalho de Labov. Com efeito, quando ele dirigiu no Harlen uma grande pesquisa sobre o vernaculário negro americano, ele perceberá que seu estudo necessita desenvolver um novo tipo de pesquisa sociolinguística, na medida em que a entrevista de pesquisa sociolinguística tende a destruir o objeto que ela quer apreender: entranto, esse objeto só pode ser encontrado e alcançado por meio de uma etnografia aprofundada das atividades sociais de grupos adolescentes (como a troca de insultos rituais). As gravações de interações sociais permite demonstrar a existência de um vernaculário que, como um dialeto dominado, tende a perder sua sistematicidade assim que entra em contato com a norma dominante [Labov, 1993].
Labov buscará integrar as aquisições da sociolinguística no quadro de linguística generativa, na época em pleno andamento. Ele adotará em consequência o modelo da consequência presente em Chomsky - a gramática é um sistema finito de regras interiorizadas que permitem a produção de um conjunto infinito de frases - com uma diferença essencial: as regras da gramática são variáveis essa variação é correlata aos fatores sociais e estilísticos. Existe, assim, uma variação inerente que escapa a todo condicionamento e que se deve a natureza intrinsecamente heterogênea da língua.
A sociolinguística variacionista é também conduzida a repensar em profundidade a questão da diacronia. Labov não se cansa de buscar compreender as mudanças linguísticas em curso. Ao estudar a língua de locutores de diferentes idades, e a partir da hipótese que as gerações mais jovens introduzem ou amplificam as inovações sociolinguísticas, se torna possível descrever, sobre o plano sincrônico, as evoluções de ordem diacrônica. A partir dos anos de 1980, após uma passagem no domínio da análise de discurso [Labov e Fanshel 1977], Labov se consagra ao estudo da transmissão de mudanças linguísticas e em propor um modelo variacionista, nos permitindo distinguir entre fatores internos à linguagem e fatores cognitivos e sociais. Ele conduz grandes pesquisas em cidades dos Estados Unidos (Nova York, Filadelfia) afim de identificar as grandes tendências em matéria de mudança fonética. Isso incluiu a compreensão dos mecanismos linguísticos e sociais (por exemplo, a existência de inovações, particularmente nas classes médias ou em determinadas profissões) explicando a difusão ou propagação de certas variáveis linguísticas, quer seham elas indicadoras (estratificadas socialmente, mas não sujeitas a variações estilísticas), ou marcadores (que apresentam uma variação tanto estilística como social) e os esteriótipos (sujeitos a uma forte avaliação social). Uma grande importância é dada sobre o plano sociológico no papel das redes de relações sociais tanto na difusão das mudanças como na difusão dos mecanismos de variação linguística entre gerações dentro de grandes cidades [Labov 1994; 2001; 2010].
Se a sociologia da linguagem proposta no livro Ce que Parleur veut dire [A economia das trocas linguísticas, versão brasileira] se inspira por um lado importante nas proposições teóricas de Labov, que Bourdieu fez traduzir na coleção "Le sens commun" que ele dirigiu na editora Minuit [1976], Bourdieu, no entanto, rejeita veementemente a ideia de um vernáculo que os membros das classes dominadas utilizariam em sua esfera íntima ou em grupos de pares, e que tiraria suas características sistemáticas de um mercado autárquico [não mediado pela estrutura geral das relações de classe e do mercado linguístico oficial ou nacional] ou, em todo caso, um mercado suficientemente isolado para não ser submisso à pressão da ordem legítima. Este vernáculo não contribuiria, segundo Labov, para o alinhamento [hierarquização, divisão sistemática] dos estilos num única dimensão, do mais formal ao mais familiar. Bourdieu critica Labov por "canonizar a "lingaguem das classes populares como ela é" [versão brasileira, ver pg. 39, rodapé pg. 42, pg. 71]. Não há dúvidas que Bourdieu sentiu-se tentado a pôr Bernstein e Labov, o primeiro atribuindo ao vernáculo as propriedades de um código restrito e querendo, de forma pró-ativa, dar às classes trabalhadoras os meios para acessar a linguagem legítima ("o código elaborado"), o segundo apenas revaloriza o quue o primeiro desvaloriza ao enfatizar as propriedades gramaticais do vernáculo e a criatividade lingaugística de seus falantes, mesmo que isso signifique esquecer [recalcar] a pressão da norma legítima [culta, dominante]. No entanto, Bourdieu adota a proposição principal de Labov das principais pesquisas sobre a mudança linguística, ao mesmo tempo que a modifica profundamente no quadro da sua economia das trocas linguísticas: o que define um mercado linguístico não é a existência de habitus linguísticos diferenciados mas o fato de que os falantes fazem a mesma avaliação das variações linguísticas [pronúncias, estilos, sotaques, dialetos...] e compartilham em relação a língua a mesma relação para com a norma legítima.
Michel de Fornel.
I. O mercado das ideias: A esquerda Ubu e a esquerda Boitempo 1. O texto publicado pelo filósofo Douglas Barros no blog da editora Boitempo – casa de esquerda que vem pautando parte do debate intelectual e universitário brasileiro de viés classista nos últimos 20 anos, responsável pela recente publicação de Angela Davis, Patricia H. Collins e outras intelectuais promotoras da análise interseccional, solução ante a interpretação linear dos problemas ligados a classe, raça ou gênero – na última quarta-feira, 21 de janeiro de 2026, logo cumpriu o esperado: em 15 horas gerou 875 comentários e 4.200 curtidas. Bem, façamos uma matemática básica: por baixo, para cada curtida consideremos que houve10 visualizações, assim, o texto foi entregue e visto por no mínimo 42 mil pessoas. Bons números! Cabe continuar acompanhando o crescimento do engajamento no post para termos a dimensão do impacto dessas ideias no público de esquerda. Deixemos de especulação. 2. Afinal de contas, sobre o que ve...
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