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Observações em torno de A. Ernaux

Início: 05 de outubro de 2024

• Transfuga de classe
Realismo desesperançado: para esses sujeitos tudo lhe dá cansaço, “mais do mesmo”.

•Ruptura e esboços de reconciliação com seu ethos e classe
Namorar jovens, não necessariamente em ascensão, com trajetória análoga a sua, mas que tendencialmente repita os modelos de gênero que lhe foram impositivos e negativos na juventude nas classes trabalhadoras se torna uma forma de amar o que se é, reencontrar, viver o presente como repetição do passado, como Ernaux repete.

• Ruptura
Como outros transfugas consolidados com conhecimento humanístico ou, mais propriamente, sociológico, porém,  solteiros, há uma elaboração economicista da relação amorosa com o jovem que se encontra, via de regra, em condição de deslumbramento e dependência com esse amante mais velho, mais vivido e com sucesso na vida.

• Problemas relativos as diferenças etárias
Função e significado diferencial da experiência amorosa com indivíduos jovens entre mulheres e homens. (Do outro lado, movimento diferente ocorre quando a relação se da entre um pequeno-burguês decadente e um jovem das classes trabalhadoras em ascensão. O que não é o caso).


•Cinismo e, em última instância, falso reconhecimento
Reconhecem o passado para não conhecer o presente e as suas virtualidades imanentes.  Mediação do presente com as duras experiências passadas, logo, desinteresse que estimula um desenvestimento e, assim, pode-se viver uma experiência amorosa e reviver-se por reencontrar-se com sua própria classe, consigo mesmo, mas só ao preço de lembrar daquilo que se fugiu. As tramas subjetivas são muitas, mas a função de manutenção de posição que se cumpre é a mesma.

• Vergonha e ódio
Todo transfuga tem ódio de onde veio, apesar de, como bons pequeno-burgueses, aprenderem bem a sublimar e sutilizar essa revolta com as origens, deixando transparecer para a própria consciência que se crê hiperreflexiva somente a consciência de vergonha. Ódio seria a ação que ataca o objeto da vergonha: separação.
Ódio e vergonha seriam variações ativas e passivas da relação com o mesmo objeto?
Ódio e vergonha são estruturas próprias que lidam com um único objeto (em Ernaux é o jovem A.) e suas operações respectivas fazem escorrer seus efeitos na outra.
 
Ódio ≡ Vergonha

A solidão é uma das moedas que se pagam para se romper as barreiras da sociedade? Isto aqui faz lembrar uma relação oculta no conceito de pagamento, o sacrifício.


*** Lembremos das observações da Distinção sobre efeitos de trajetórias (p. 107):
“Este efeito de trajetória [isto é, a posição de chegada em relação ao efeito de incucação, a posição de partida] contribui, sem dúvida, em uma parte importante, para embaralhar a relação entre a classe social e as opiniões religiosas ou políticas pelo fato de que ele orienta a representação da posição ocupada no mundo social e, por conseguinte, a visão desse mundo e de seu futuro: em oposição aos indivíduos ou grupos em ascensão, plebeus de nascença ou de cultura... os indivíduos ou os grupos em declínio reinventam eternamente o discurso de todas as nobrezas, a fé essencialista na eternidade das naturezas, a celebração do passado e da tradição, além do culto integrista da história e de seus rituais, porque resta-lhes, em relação ao futuro, a expectativa do retorno da antiga ordem pela qual esperam conseguir a restauração de seu ser social. [Aqui valeriabse questionar a também ambígua experiência de envelhecimento de indivíduos que viveram a ascenção em sua relação e como eles lidam com o seu passado no presente]. Esta confusão é visível, particularmente, nas classes médias e, em especial, nas novas frações dessas classes que, por se tratarem de espaços de indeterminação, cuja situação na estrutura social é instável, realizam no mais elevado grau a propriedade, característica da classe [média ] no seu todo, de fazer coexistir indivíduos com trajetórias extremamente dispersas. Esta dispersão das trajetórias observa-se, até mesmo, no plano da unidade doméstica que, em relação às outras classes, tem mais possibilidades de reunir cônjuges (relativamente) desajustados não só por sua origem e trajetória social, mas também por seu estatuto profissional e nível escolar” (A Distinção, p. 106).

Retorno:  07 de outubro

"E, quando se é oriundo das camadas sociais dominadas, a concordância intelectual que se dá às análises rigorosas de Bourdieu se associa ao sentimento de evidência vivida, da veracidade da teoria de alguma forma garantida pela experiência: não se pode, por exemplo, recusar a realidade da violência simbólica quando você e seus próximos a sofreram" (ERNAUX, Bourdieu: Le chagrin. Le Monde, 05/02/2002).

Tenho refletido muito sobre a dureza da forma com que ela escreve. Dureza e concisão. Descrever sem estetizar, sem tornar leve ou sublimar. Será possível?
Não discordo das linhas estruturais que tracei para interpretar seu primeiro romance que li. Seguirei ainda esse trabalho, mas, me parece ser necessário fazer um esforço de historicização reflexiva no sentido de compreensão do processo de autoapreensão do espírito por si, inda mais quando tratamos de literaturas feitas a partir de um denso contato com a reflexão sociológica. Isso também acaba por se tornar um determinante da forma, bastaria pensarmos em autores como Jorge Amado, Graciliano, Sartre ou Cortazar e o momento de efervescência histórica em que eles escreveram, mesmo no caso de literatos de profissão, a determinação da teoria marxista e dos movimentos de subversão da ordem política constituem sua prosa. Assim, é nesses termos que tento encaixar tanto a ganhadora do nobel como outros praticantes de literatura que são sociólogos de profissão e, principalmente, impactados pelo trabalho de Bourdieu.
Não só a origem como, principalmente, a trajetória social (como negação dessa origem) é o que muito fala e se d-enuncia não só no conteúdo, em certa "resistência à fabulação" (devo essa observação à prof. S. B.) como na consciência da forma, tão presente e intencional em Ernaux.
Um segundo movimento ainda me é caro, como a comparação dela com T. Morisson ou C. Evaristo ou J. Baldwin para sondar a própria relação diferencial que se estabelece entre negros e brancos - dado suas situações histórico-nacionais específicas - na elaboração literária do mundo de experiência de seus personagens.
Sem falar que por mais realista que se proponha, ainda trata-se de arte. Contudo, isso é um topos problemático que requer muita análise dado que existiu historicamente uma arte que se propunha científica (o naturalismo como melhor exemplo) e o próprio trabalho da Ernaux beira o rico relato etnográfico.

(A tudo que se pretende realista deveria preceder "Ceci n'est pas une pipe").

Material de consulta

DE ARAÚJO PONTES, Isadora. Annie Ernaux, uma escritora trânsfuga de classe. Magma, v. 25, n. 14, p. 65-84, 2018.
SAPIRÓ, Gisèle. Annie Ernaux, etnógrafa da violência simbólica. The Institute for World Literature, Harvard University, 10 out. 2022. Disponível em: https://iwl.fas.harvard.edu/news/annie-ernaux-ethnographer-symbolic-violence-gis%C3%A8le-sapiro. Acesso em: 7 out. 2024.

Ernaux, A. https://www.lemonde.fr/archives/article/2002/02/05/bourdieu-le-chagrin-par-annie-ernaux_261466_1819218.html

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