Se for possível me expressar nos seguinte termos, ponho: a sociologia enquanto forma de conhecimento do mundo social - como Geistwissenschaft - tem como princípio explicativo geral o primado da relação social contra a aparência individualista que a existência dos corpos individuais retifica.
Para além de uma defesa de um idealismo transcendental que reconhece na intersubjetividade, no fato de que o outro é um outro eu e é por essa relação com o alter que o ego pode se formar, o social e com isso oblitera a existência da relação social mesmo na ausência do eu em seu modo individuado (E. Benveniste e outros linguistas e antropologos descobriram múltiplos povos que não possuíam o pronome da primeira pessoa do singular, forma linguística que ao enunciar realiza um ato generificante que permite que (como dizia Hegel): "o espírito reconheça a si mesmo"), gostaria de propor uma breve reflexão calcada nesse descentramento sociológico que faz da relação e, por consequência, da exterioridade - melhor seria falar junto com os fenomenólogos de uma pré-objetividade - princípio do conhecimento da sociedade.
A máxima tradicionalmente mobilizada para justificar a introspecção como o caminho para o conhecimento de si também pode, com uma leve modificação de sua forma linguística, levar para outra direção desde que apreendida de outra posição. Conhece a ti mesmo, conhece a outro ti.
Sem arrodeios excessivos, o "isto não é uma autobiografia", com o qual Pierre Bourdieu inicia seu Esboço de autoanálise (Bourdieu), dada sua intenção de pôr na mão do intérprete os princípios estruturantes de uma trajetória que um sociólogo carece, como necessidade intrínseca de seu espírito científico, para traçar uma compreensão objetiva de um agente como "um ponto em movimento" no espaço social, de um outro científico que o perceba em sua natureza.
Pode tal obra, então, não só ser interpretada, o que é o mínimo, mas ser tomada pelo que é, um banco de dados pré-formatado e que, feito por alguém que conhecia bem as dificuldades de lidar com dados dados, isto é, feito por outros, expõe, ma medida em que denegações são mais ou menos controladas, os princípios de seleção dos fatos (experiências) eficientes para explicar a formação de um habitus singular no interior de um campo acadêmico bem desenvolvido.
Se posso fazer expediente de uma metaleitura - ou de uma interpretação especulativa, nos termos do idealismo alemão - aquela obra em seu ato de construção científica e fática, como um dado, se pré-constrói. Por isso, sua existência - para todo o campo da sociologia de matriz bourdieusiana, quer em sua veia realista e herética que se nomeia "disposicionalista", quer em sua veia racionalista e sacerdotal da "teoria dos campos" - é uma indagação de esfinge: decifra-me ou te devoro.
Para um sociólogo que defendeu a profunda historicidade da razão (Meditações Pascalianas) ou a socialidade do simbólico (Senso Prático) e que por isso se reconheceu como um estruturalista infeliz ou, como ele sinonimizou ao classificar seu método, um estruturalista genético, a coincidência, no nível da razão dos efeitos, da forma dessa autoanálise com a da esfinge e não com a de Ulisses, sujeito ardiloso, "protótipo do burguês", mais próximo do tempo e da história, diferente do mundo cíclico que ela aterroriza...
“a esfinge, enigmática, símbolo do simbolismo”. Hegel e a arte, Gérard Bras.
Elaborado intencionalmente como um dado para análise por um outro ou outra socióloga, a dimensão esfingea se torna mais evidente. Tal obra nos diz: estou aqui pronta, interpreta-me ou irei te devorar.
(E não é irônico ver, ainda por analogia, o proletário racionalista Lahire, após decifrar e destruir o monstro que lhes afastou da Paris, agora, na velhice, doente da coluna pelo longo trabalho que fez - manco qual Édipo - se ver obrigado a escrever um manifesto que defende o retorno duma ciência social racionalista que retome um princípio lógico mais básico mas tão recalcado pelas ciências sociais e humanas: a dependência das variações histórico-sociais para com invariantes).
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