A análise de Norbert Elias no ensaio A peregrinação de Watteau para ilha do amor (2005[1983]), dividida em três partes, passa da descrição da tela em seus pormenores; a sua relação com o antigo regime francês e a entrada de A. Watteau na academia de artes concomitante a elaboração da utopia coletiva da nobreza que idealizava uma ilha de amor; até a recepção da obra na sociedade francesa pós-revolucionária, que já não mais se encontrava sobre o domínio da nobreza (Luís XIV, analisado na Sociedade de Corte) e que via surgir um “campo artístico”, mercado de produtores para produtores, onde os princípios de avaliação estéticos não eram mais dependentes diretamente do gosto do público/mecenas leigo.
Nessa atmosfera, vale a ênfase em características psicossociais que Elias tangencia como próprio a Watteau e que talvez não tenha sido mais explorado por falta de dados(?). De todo modo, já na análise "iconográfica" da primeira parte do ensaio não deixa de transparecer em sua lenta descrição dos personagens, do jogo de luz e do status da natureza uma sinuosa melancolia que ambiguifica o quadro tornando mais maleável sua apreciação e recepção pelos grupos sociais a que se destinava (o quadro era o "passe" de entrada na academia de artes).
Conectando um tema que, de acordo com a apresentação do livro que contextualiza os motivos da escrita do ensaio por Elias, era de seu professor de História da Arte de juventude, Wilhelm Pinder, o tema das gerações artísticas, i.e., da transformação de modelos estéticos lhes era um problema teórico caro, dado também o lugar que em sua sociologia teria os processos sociais e a evolução de hábitos, como suas demais obras fazem ver - recebendo recentemente também a designação e a posição de destaque nos empreendimentos designados por “Sociologia Processual” ou “Sociologia Relacional”.
Quanto ao tom de sua análise, ainda que breve, se observa um equilíbrio no curto espaço do ensaio entre análise internalista e externalista da obra de arte. Não deixando de ressaltar, para uma leitora atenta, que apesar da descrição dos processos de recepção interessada por motivos sociais de época, na análise de Elias existe, ou resiste, uma objetividade estilística do quadro Peregrinação para ilha de Citera que mesmo tornando-o predisposto a um “olhar seletivo” que cada época pode operar sobre ele, faz sobrepesar uma atmosfera melancólica que não estava acessível para seus contemporâneos ainda imbuídos dos anseios do antigo regime e que o próprio Elias associa à mudança final na designação da tela para "Uma festa galante":
À exceção da luminosidade um tanto ofuscante do pôr-do-sol em segundo plano, onde se pode descobrir, bem ao espirito do título, indícios da misteriosa ilha de Citera, o quadro é tão comedido na expressão de sentimentos, e talvez por isso mesmo tão prenhe de sentidos, que, no momento de sua entrega à Academia Real, aconteceu algo singular. O título "Peregrinação à ilha de Citera" é riscado. Em seu lugar aparece como título do quadro “Uma festa galante” (Elias, 2005, p. 29).
Ou
Não podemos deixar de observar que, na atmosfera não muito fácil de se apreender de Citera, não faltam sinais de tristeza. Pois, nos anos 1850, esses sinais se colocam em primeiro plano para os espectadores (Elias, 2005, p. 55).
As alterações no pêndulo do gosto das épocas podem se aproximar ou não da intenção objetiva que cada obra guarda em sintonia com a cadência do momento histórico-subjetivo ao qual ela é uma objetivação. A reconstituição que cada analista pode fazer - sociólogo, historiador da arte etc.- se encontrará com as invariantes da estrutura de poder de uma época que determinará a posição geral da arte em uma sociedade, de seus gêneros particulares - pintura, literatura, escultura, dança, música etc. - e do artista em seu interior. Disso, podemos inferir da recepção de medeados da década de 1850 feita pela boemia desencantada como C. Baudelaire explicita (Elias, 2005, p. 49), um olhar mais matizado apto a apreender, tanto em função das idiossincrasias constitucionais do poeta como dos princípios estéticos da arte francesa de então, a tensão (pre)figurada no quadro da “mudança na atmosfera dominante das belas para as terríveis utopias, do ideal para o pesadelo, [que] certamente não se realizou de uma só vez” (p. 51).
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