Pular para o conteúdo principal

Conceito, experimento, experiência.

Na teoria de Bourdieu, a prova sociológica de uma explicação é, não em última, mas talvez em uma mediana instância, uma prova existencial; ela diz implicitamente: “leitora, faça consigo mesma as operações de objetivação que torne uma parte de sua experiência sociologizável e, então, teste se este conceito lhe doa um outro sentido” ou, como ele dizia citando a Husserl: “é preciso uma variação eidética sociológica".
Mesmo que o argumento tenha uma força empírica indubitável, é preciso fazer uma variação estrutural e buscar pensar o efeito daquela afirmação "em si", pressupondo a ontologia sociológica da sociedade, não sua metafísica consensual. Aí todo argumento ganha uma significação diferencial ou, se preferirmos, radical.

Quando realizo uma pesquisa e descubro com meus esforços aquele mecanismo que a teoria havia dito que lá estava, não simplesmente reencontro algo que já sabia. Eu vivo a visão daquela coisa tal como nos maravilhamos ou nos assustamos ao conhecer algo de novo e estranho. Esse reconhecimento das pesquisas iniciais, ao que me parece, é central na consolidação do habitus científico, pois, os semiexperimentos que a sociologia nos permite fazer tem valor formativo análogo a repetição das equações da relatividade para o jovem físico.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

"Contra Nego Bispo" ou As duas almas da esquerda brasileira

I. O mercado das ideias: A esquerda Ubu e a esquerda Boitempo 1. O texto publicado pelo filósofo Douglas Barros no blog da editora Boitempo – casa de esquerda que vem pautando parte do debate intelectual e universitário brasileiro de viés classista nos últimos 20 anos, responsável pela recente publicação de Angela Davis, Patricia H. Collins e outras intelectuais promotoras da análise interseccional, solução ante a interpretação linear dos problemas ligados a classe, raça ou gênero – na última quarta-feira, 21 de janeiro de 2026, logo cumpriu o esperado: em 15 horas gerou 875 comentários e 4.200 curtidas. Bem, façamos uma matemática básica: por baixo, para cada curtida consideremos que houve10 visualizações, assim, o texto foi entregue e visto por no mínimo 42 mil pessoas. Bons números! Cabe continuar acompanhando o crescimento do engajamento no post para termos a dimensão do impacto dessas ideias no público de esquerda.  Deixemos de especulação. 2. Afinal de contas, sobre o que ve...

Os culpados pelo ódio contra a universidade pública brasileira

Para leitura do texto aqui criticado : https://red.org.br/noticias/manifesto-docente-defende-liberdade-academica-e-pluralismo-em-universidades-publicas/#google_vignette Mais um texto dessa cruzada de classe que teme em enunciar e objetivar a sua real razão de ser. Cruzada de discentes e docentes, entre sociedade e universidade na qual os "discentes militantes" são elevados aos responsáveis pela imagem negativa da universidade junto a "sociedade brasileira", não a escalada da extrema-direita, anos de olavismo e de ataque às instituições e ao funcionalismo público. Manifesto que se não erra por completo em seu diagnóstico (de fato, há uma falta de "cultura acadêmica", há um antiacademicismo no interior da academia cada vez maior), erra em sua falta de paladar histórico: escola sem partido, ataque às supostas "ideologias de gênero" são posturas que não só se fortaleceram com a ascensão da direita brasileira desde 2013 como encontrou eco com político...

A teoria de campo de Bourdieu, John Levi Martin

Introdução A teoria de campo foi introduzida nas ciências sociais psicológicas em meados do século XX por psicólogos e filósofos alemães (após a guerra, principalmente expatriados para os Estados Unidos). Influenciados pela física, esses pensadores tomaram emprestadas as características distintivas das teorias de campo físicas para aplicá-las ao domínio humano. Embora essa genealogia tenha sido em grande parte extinta na teoria social americana em algum momento da década de 1970, à medida que desaparecia nos Estados Unidos, Pierre Bourdieu ressuscitava a teoria de campo na França, tornando-a o cerne de seu próprio aparato explicativo. Sua notoriedade levou muitos estudantes atuais de ciências sociais a confundirem a teoria de campo com os próprios escritos de Bourdieu, tornando impossível até mesmo questionar se Bourdieu era de fato um teórico de campo rigoroso, muito menos perceber em que direções suas ideias contribuíram para o projeto da teoria de campo. Neste capítulo, delineamos i...