O peso do passado, o peso da família.
Uma nota sobre epistemologia sociológica
O nível da crítica de Bernard Lahire à Pierre Bourdieu não é empírico, ao contrário do que se faz crer devido a sua considerável coragem empírica - é um problema para epistemologia da ciência saber se é possível realizar uma crítica baseado unicamente em dados empíricos per si. Como crítica teórico-empírica podemos, então, discutir a fundamentação lógico-objetiva, isto é, sua fundamentação ontológica e, mais importante que isso, as operações epistemológicas, de construção, pressuposta por sua teoria do mundo social. A tensão e descompasso triangular entre a ontologia pressuposta, as operações de pesquisa e os fatos teoricamente produzidos é o que permite considerar projetos científicos tanto em sua originalidade como em suas limitações.
Vejamos essa variação: as disposições familiares de um indivíduo que se expressam em sua obra literária não seriam as mesmas caso o mesmo indivíduo manifestasse seu "gênio artístico" em uma obra literária de estilo diferente ou mesmo em outro gênero de obra de arte. Essa diferente objetificação levaria, assim, o biógrafo (ou sociólogo biográfico) a buscar outras experiências socializadoras (ou individualizantes, de acordo com a equivalência feita por N. Elias (2006, p. 26) entre ambos processos) para explicar as características singularizantes da obra. Como tal, o problema com esse modo de pensar que se exemplifica nesse exemplo é tomar a família - ou, se quisermos, qualquer experiência socializante - como instituição central e com peso equânime à determinação das dimensões assumidas por uma obra ou por um conjunto de uma obra artística, mas nunca suspeitando da força causal particular e retroativa do campo literário sobre o conteúdo "da vida" - "conteúdo vivido" - expresso transfiguradamente (em maior ou menor medida) na obra de um autor ou autora. Um tanto ironicamente, sempre encontraremos intensas experiências da socialização familiar - ou de algum outro espaço particular de socialização (sexual, escolar, religioso, econômica) - para explicar qualquer produto artístico ou, de modo geral, cultural.
Explicitamente, no artigo "Literature is Not Just a Battlefield" (2015), podemos ler detalhes da epistemologia realista e (em nível subterrâneo existencialista) que orienta a crítica de Lahire:
"The field becomes the alpha and omega of the author's word. As for author, they seem to have no experience preceding their entry in the field (or else these experiences appear relevant only in a very synthetic form, to be retranslated into the logic of the field) and they no longer seem to have any extraliterary experiences parallel with their activity in the literary field" (Lahire, 2015, p. 404).
Ou ainda:
"The image of authors writing what they write and in the way they write as a function purely or they position in a "field" is a representation at variance with how things really are and does not enable us to adequately interpret their works" (Lahire, 2015, p. 405).
A epistemologia construtivista ou racionalista implicada na teorização de Bourdieu, como uma violência contra a experiência rica e diversificada da vida das pessoas, de sua existência total, aparece como uma redução de sua amplitude existencial em função da relação mais ou menos ajustada de suas disposições encarnadas e a sua posição ocupada em um campo ou espaço social, como prerrogativa de seu racionalismo. Certamente, isso é um limite e viola, em uma primeira visada, os critérios cronológicos da fabricação social do indivíduo:
"As I have emphasized, Bourdieu takes sides with the field - Flaubert's position in the literary field and the literary field in relation to the field of power - against a biograohical trajectory, and also, one might say, against the social origins of an individual habitus (the study of the various moment of an author's socialization"(Lahire, 2015, p. 401).
Contudo, como adiantamos no início do texto, o que possibilita o rastreamento e a pesquisa cronológico-realista das experiências que seriam "transpostas" na obra literária é o contato do pesquisador com a forma da objetivação artística, que é, por definição, determinação de um estado histórico do campo de compossibilidades no desenvolvimento do campo artístico em questão. O que imprime à pesquisa cronológica que desconsidera o efeito de seleção dupla exercido pelo campo (isto é, o filtro que I. a posição no campo implica às II. experiências passadas manifestas) uma limitação lógica.
A apreensão desse espaço epistemológico formado pelo par "realismo-racionalismo", que exerce efeitos também na própria concepção da temporalidade do ser social - um tempo linear ou um tempo relacional, por analogia - pode ser feita por outra perspectiva, com o intuito de articular a crítica realista à teoria dos campos, vejamos.
O problema visualizado na leitura do artigo de Bernard Lahire induz o leitor, facilmente, a negar a autonomia relativa dos campos culturais em função de uma reconstrução biográfica que permitiria reencontrar o princípio explicativo (sciendi) e o princípio criativo (realissimum) em esferas de socialização extracampais. Seguindo o tema do artigo, poderíamos assim representar ambas as posições:
A parcial irredutibilidade do desenvolvimento de um habitus individual ao desenvolvimento das posições de um campo ou de um espaço social sempre deve ser observada como uma contradição real, tendo-se em mente que a relação entre habitus e posição nunca é, em todos os casos, a de um "peixe dentro d'água". (A relação de cumplicidade ontológica entre uma posição e as disposições do seu ocupante mesmo quando não é verificada, não deixa de ser atuante em um sentido negativo, isto é, como um conjunto de coerções externas e que podem ser internalizadas pelo próprio agente produzindo tanto práticas que visam o aperfeiçoamento ou a adequação, até aquelas que visam a negação e transformação do sistemas de restrições objetivas que constituem um campo).
Se pudéssemos apelar para o dialeto de um outsider sociologist veríamos que as pesquisas da sociogênese e da psicogênese podem ser executadas individualmente, ainda que a prevalência epistemológica deva ser dada à estrutura, isto é, um determinado estado da diferenciação do espaço ou subespaço social analisado através do indivíduo e que predispõe-no a agir de uma dada maneira e, num nível mais profundo, determina o próprio interesse teórico por um indivíduo determinado. (Não apresentarei aqui o catecismo da ruptura sociológica que ensina ser preciso apreender o mundo social em suas dimensões encarnadas e objetivadas em mecanismos e instituições particulares, sendo ordinariamente identificada a "sociedade" com esse segundo modo de apresentação e o "indivíduo" como a meta de atuação da "sociedade").
Acredito que a tensão que apreendemos nessas duas perspectivas se dissolve razoavelmente ao termos em mente a refração em dois níveis exercida pelo campo nas obras e nas experiências passadas que servem como parte, mas nunca conteúdo total, da explicação do resultado observado, ou contemplado, em sua forma artística, observando o risco da armadilha realista que torna possível encontrar sempre um conteúdo passado qualquer permitindo denegar o efeito formal, próprio ao campo, no conteúdo da obra cultural. Em um artigo não traduzido, O funcionamento do campo intelectual, escreve Bourdieu:
“Não vamos do Homem à Obra: dizer que existe um campo é dizer que para ir do Homem à Obra é preciso passar pelas relações entre todos os homens e pelas relações entre todas as obras”.
Por último, seria ainda expediente de refletir, junto com Gisèle Sapiro (2019, p.10), se tal concepção que reencontra em espaços de socialização extraliterários o princípio criativo das obras literárias não atualizaria às avessas o antigo lugar da sociologia da arte que identificava o sujeito da obra com a classe ou grupo social do criador e não com o campo cultural com e contra o qual ele se faz escritor? E se assim o for, não seria possível também compreender tais possibilidades interpretativas, que corroboram ou desautorizam a abordagem em termos de campo, como efeito do encontro dos campos que a situação de pesquisa põe em jogo?
Bibliografia
ELIAS, Norbert. Escritos & ensaios 1. Zahar, 2006.
LAHIRE, Bernard; JONES, Marlon. Literature is not just a battlefield. New Literary History, v. 46, n. 3, p. 387-407, 2015.
SAPIRO, Gisèle. Repensar o conceito de autonomia para uma sociologia dos bens simbólicos. Práxis Educativa, Ponta Grossa , v. 15, e2015017, 2020 . Disponível em <http://educa.fcc.org.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1809-43092020000100126&lng=pt&nrm=iso>. acessos em 23 dez. 2024. Epub 04-Jun-2020. https://doi.org/10.5212/praxeduc.v.15.15017.035.
BOURDIEU, Pierre. Le Fonctionnement Du Champ Intellectuel. Regards Sociologiques, n°17/18, 1999, pp. 5-27.
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