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Resenha crítica de Perissinoto et al (2023): A elite dos colunistas de economia como comunidade epistêmica: uma análise de redes (2019-2021)

De modo sucinto, a pesquisa desenvolvida por uma pesquisadora e três pesquisadores retrata aquilo que poderíamos chamar de subcampo do jornalismo econômico que divide as fronteiras entre o campo jornalístico e o campo da economia no Brasil. No artigo, porém, esta realidade é retratada e pesquisada a partir do conceito de comunidade espistêmica:

“Nesse sentido, segundo uma definição canônica, comunidades epistêmicas são redes de pessoas que: a) partilham determinadas crenças normativas sobre o que é certo e errado, bom ou ruim, justo ou injusto; b) compartem determinadas crenças causais (procedimentos a serem adotados para a realização dos ideais normativos); c) partilham um conhecimento especializado e tido como legítimo pela sociedade (ferramenta a ser utilizada para operacionalizar as crenças causais e realizar os ideais normativos); e d) têm um objetivo político comum: influenciar uma política pública específica de modo coerente com as crenças normativas da comunidade epistêmica em questão (Haas, 1992)”.

A escolha por esse conceito acaba por não permitir que se explore as dinâmicas antagônicas que estruturam o próprio espaço dessa "comunidade" revelando como determinadas posições - ser economista ou jornalista profissional -, disposições - como aquelas diferenciam economistas e jornalistas econômicos teoricamente ortodoxos ou heterodoxos - ou a ligação a instituições acadêmicas ou empresariais são determinante na distribuição desigual de poder, na formação e transmissão de teorias para os colunistas e nas veiculações de representações sobre a sociedade brasileira.

A coluna de jornalismo econômico surge como uma instância de legitimação científica das escolhas políticas de atores estatais oferecidas por jornalistas especialistas (com ou sem formação em economia) os fazendo participar, indiretamente, por essa contribuição para a racionalização do exercício de poder, para as "elites políticas" (p.05).

Os procedimentos metodológicos são instrutivos, cabendo destacar que a base de dados produzidas para tal pesquisa encontra-se disponível para acesso público na base de dados do Observatório das Elites Políticas e Sociais no Brasil. Tal recurso que as análises por eles empregadas sejam expandidas em outro sentidos.

Como exemplo teórico interessante das operações de pesquisa, poderíamos nos perguntar por que na elaboração da lista dos colunistas só foram entrevistados professores de economia de quatro instituições de ensino (p. 22). Por outro lado, mesmo com a exclusão dos uspianos na elaboração da lista do "critério de reputação" dos colunistas mais importantes, na Analise de Redes Sociais (ARS) ela surge como instituição de ensino com maior número de filiações.

No geral, a colaboração mais importante do artigo consiste nele apresentar a relação de mediação e continuidade entre o campo de formação intelectual, o subcampo de atuação jornalístico e o espaço das "think tanks" como sendo realizado totalmente por economistas ortodoxos em função de sua multiposição como professores, colunistas em empresas de jornalismo e com atuação em think tanks de forte impacto social e de clara orientação ortodoxa. A ARS mostra que são esse agentes mediuns para a transmissão da visão ortodoxa para os jornalistas econômicos, função não exercida por nenhum colunista economista ligado “a instituições heterodoxas (Unicamp, UFRJ, BNDES)” (p. 16) e, como escrevem finalmente:

“podemos dizer que os colunistas economistas são os mais importantes atores dentro da comunidade epistêmica dos colunistas econômicos” (p. 19).

Como última observação: os autores e autora poderiam ter explorado melhor em que medida a diferença teórica ortodoxo-heterodoxo espelha a diferença política direita-esquerda ou a diferença moral conservadorismo-progressismo. Só podemos esperar que o desenvolvimento futuro dessa pesquisa dê um passo importante ao adentrar no conteúdo das visões de mundo partilhadas por tais intelectuais, configurando um instrumento ímpar para a reflexividade sobre o campo político brasileiro dominado por representações neoliberais e ortodoxas em economia e cada vez mais por uma racionalidade tecnicista na política.

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