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A sociologia pós-colonial de Julian Go

Esse comentário se refere ao único artigo até então traduzido no Brasil ou melhor, em língua portuguesa, do sociólogo formado na universidade de Chicago com largos escritos sobre sociologia histórica do imperialismo e do mundo pós-colonial, Julian Go. Expoente tanto de uma sociologia histórica como de uma sociologia relacional, dimensões constitutivas de seu projeto, sua empreitada científica também defende o “ponto de vista do dominado” contra a regular abordagem dos fenômenos sociais feitas desde uma perspectiva externa e sem se preocupar com o peso da tradição epistemológica que envolve as categorias que o analista põe em ação.
Dito isso, o artigo que aqui comento foi traduzido em 2018, Bourdieu, Argélia e a Perspectiva Pós-Colonial, se trata de uma recuperação muito particular desse sociólogo (ou antropólogo das sociedades diferenciadas) tratado muitas vezes pelos teóricos pós-coloniais como mais um intérprete do império. Todo exercício de Julian nas 20 páginas de seu texto é para apresentar como Bourdieu estava conectado tanto objetivamente como epistemicamente com as críticas feitas por teóricos que foram assumidos como percussores da crítica pós-colonial: Franz Fanon, George Balandier, Albert Memmi e também outros autores menores, que foram mais próximos de Bourdieu e que só chegaram a circular graças a elevação que o próprio prestígio de Bourdieu lança sobre suas obras. Deixo a citação de Julian Go:
“Os colaboradores e colegas de pesquisa de Bourdieu incluíam estudantes, jornalistas, acadêmicos independentes e intelectuais argelinos como Mouloud Feraoun e Moloud Mammeri, os quais provavelmente expuseram mais Bourdieu ao discurso crítico sobre o colonialismo francês e que escreveram, eles mesmos, suas próprias visões sobre o colonialismo na Argélia (YACINE, 1990). Feraoun, um romancista que ajudou a criar um gênero de “romances etnográficos”, leu e comentou sobre o primeiro trabalho de Bourdieu sobre os cabilas (BOURDIEU, 2001: IX; YACINE, 2008b: 40). Outro colaborador de Bourdieu, Abdelmalek Sayad, seria o co-autor de Bourdieu em Le déracinement (O desenraizamento, 1964) e seria um importante amigo e uma influência intelectual sobre ele (BOURDIEU, 1998; 2008b; SAYAD, 2002)”.

Mas, afinal de contas, em que consistiria uma sociologia pós-colonial? Em duas citações: “A palavra “pós-colonial” na expressão “teoria pós-colonial” ou em “estudos pós-coloniais” não se refere a um momento ou período histórico depois da descolonização. Ela se refere, ao invés disso, à uma posição ou postura relacional contra o colonialismo e além dele” (p. 13).

E

A cultura do império emerge e reflete as experiências, interesses e visões das metrópoles dominantes. A teoria pós--colonial reflete as experiências, interesses e visões do colonizado. O segundo está relacionado: a teoria pós-colonial procura desvelar, criticar e ir além desta episteme imperial. A teoria pós-colonial é “pós”-colonial no sentido em que ela procura conhecimentos e enquadramentos para entender o mundo que não dependem das lentes colonialistas. A teoria pós-colonial se refere a um corpo de conhecimentos e quadros de entendimento de mundo que criticam, ao invés de aproveitar, reforçar ou reproduzir esta larga episteme do império” (p. 14).

Sintetizando o argumento de Julian: ao se fazer uma leitura rigorosas da obra de Pierre Bourdieu e principalmente por suas posições políticas e intelectuais durante sua estadia na Argélia -- momento que se canonizou como o de sua conversão de fenomenólogo da vida afetiva para um sociólogo das experiências da disjunção das experiências temporais e da cisão das estruturas subjetivas situadas entre dois mundos, entre duas culturas -- podemos descobrir que toda sua teorização daquela estrutura de dominação francesa naquela região do norte da África, a Argélia, superou as análises em voga do colonialismo por tomá-lo como sistema social objetivo e não como uma etapa de um processo civilizacional de modernização (como queria antropologos como Tillion ou alguns economistas) ou, em sua versão mais resignada, como uma etapa do processo de aculturação (como escrito por G. Balandier e que teoricamente pressupunha um momento posterior de assimilação e integração, o que eu postulo serem efeitos da teoria de seu mestre já aplicada no Brasil, Roger Bastides, que em alguma medida reverberou em toda obra de Florestan Fernandes e em toda sociologia brasileira que se debruçou e se debruça sobre o problema do racismo). Fora essas duas leituras, ainda haviam aquelas teorizações que frisavam na dimensão psicanalítica do colonialismo, a qual Bourdieu não negara, porém, complementara ao demonstrar a estrutura sociológica da dominação colonial que atravessava todas as instâncias da vida, desde o nível mais íntimo das estratégias de reprodução familiar, a relação com o tempo, a terra, a plantação, a vestimenta e os gestos até às tensões macropoliticas entre os colonos e o nativos. Apesar de Julian Go não apontar, no seguimento de suas pesquisas, textos e intervenções futuras, Bourdieu teorizou o colonialismo a uma instituição total goffmaniana e ainda, se pudermos avançar tal tese, a condição colonial seria expressão daquele "estado patológico dos campos" dado que o Estado colonial é uma estrutura política que canaliza todos os seus meios para o fim de conservar a subjugação política e a manutenção de uma categoria social como cidadãos de segunda classe, reproduzindo no interior de uma sociedade que teve uma revolução capitalista imposta pelo alto um duplo princípio de diferenciação: de classes e de castas -- que resulta logicamente em um sistema fortes bloqueios de mobilidade e de altas cisões individuais, pois, intensifica os processos que levam a uma vergonha cultural. [Para ver tal teorização dos estados patológicos ler Coisas Ditas, para os efeitos subjetivos da negação cultural, ver o artigo As contradições da herança].

Esta teorização do colonialismo como um sistema racializado de dominação enraizado na coerção foi além das abordagens de Mannoni e Memmi porque Bourdieu sublinhou o monopólio sobre a violência do Estado colonial. Nem Mannoni nem Memmi teorizaram a violência como intrínseca ao sistema. Além disso, a explicação de Bourdieu sobre privilégio racial e força nua como a base do sistema foi além das teorizações iniciais de Leiris e Balandier sobre a “situação colonial”. Enquanto nem Leiris ou Balandier teriam negado a importância do racismo ou da coerção, eles não fizeram do privilégio racial e da coerção elementos centrais para suas teorias do sistema colonial ” (p. 20).

Como escreveu Julian Go no parágrafo final do artigo, "o trabalho inicial de Bourdieu baseado na Argélia colonial colocou o colonialismo à frente e no centro. Assim, ele teorizou sobre dominação colonial, coerção, privilégio racial e a cultura como parte de um sistema colonial abrangente. Essas inovações foram permitidas devido ao seu método de adotar o ponto de vista do colonizado” (p. 28-9). Esse método que marca a antropologia de Bourdieu e que o coloca, neste caso, "no ponto de vista do colonizado" é uma consequência dela ser, em essência, uma teoria da prática, uma praxeologia. Em sua dimensão praxeológica ou reflexiva seu esquema de análise sociológico que traz embutido um conjunto de disposições mentais e práticos de pesquisa é uma empreitada por definição anti-imperial pois tem como um de seus pilares a anamnese da gênese das formas de pensamento tradicionalmente transmitidas pelas instituições responsáveis pela fabricação dos produtores de bens simbólicos, os intelectuais. Nesse sentido, ela é uma sociologia profundamente histórica e sabedora dos riscos de, ao invés de pensar, ser pensada pelo objeto naquilo de mais simples e espontâneo: nas nossas "formas primitivas de classificação" ou em nossos esquemas práticos de percepção, elaboração e ação no mundo que guiam também nossas práticas científicas.

Não me alongarei mais. Espero que este comentário breve tenha despertado o interesse por conhecer a obra de Julian Go como também de olhar com outros olhos para sociologia estabelecida de Bourdieu já que sabemos que precisamos de outros olhos  para vermos no ordinário o extraordinário.

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