A análise de correspondência é uma técnica de estatística multivariada (estatística que lida com tabelas contendo diversas variáveis). É uma variante da "análise fatorial" ou "análise de correspondência principal" (ACP), utilizada desde a década de 1940, principalmente por psicólogos, mas progrediu consideravelmente e se difundiu, pelo menos na França, nas décadas de 1960 e 1970, sob o impulso do estatístico francês Jean-Paul Benzécri e seus colegas. Eles trabalharam na extensão, tanto do ponto de vista matemático quanto da ciência da computação, da análise fatorial para tabelas contendo não variáveis quantitativas, que, como altura ou idade, assumem valores numéricos, mas variáveis qualitativas, que, como sexo ou categoria socioprofissional, atribuem um indivíduo a uma categoria ("homem", "trabalhador", etc.).
Pierre Bourdieu utilizou essa técnica desde meados da década de 1970, principalmente a variante que, hoje chamada de "análise de correspondência múltipla" (ACM), permite o processamento de grandes tabelas que fornecem informações para um conjunto de indivíduos estatísticos (que podem ser, por exemplo, indivíduos biológicos, coletivos, etc.) sobre um grande número de variáveis qualitativas. No Centro de Sociologia Europeia (CSE), Salah Bouhedja investiu na técnica e em programas que permitiram sua implementação. O primeiro artigo contendo uma ACM foi publicado em 1976 e reimpresso, três anos depois, de forma revisada, em La Distinction. Se este não é o caso do famoso diagrama do espaço social, os gráficos deste livro, que tratam das variantes de gosto dominante e gosto médio [Di: 296, 392], resultam da ACM. Posteriormente, Bourdieu mobilizou a ACM no estudo de empregadores [PB 1978b; depois A Nobreza de Estado], do campo acadêmico [Homo academicus], das Grandes Écoles [NÉ], da política habitacional [As Estruturas Sociais da Economia], da publicação [PB 1999a]. Pesquisadores que trabalham sob a inspiração de Bourdieu ou/e ao lado dele também mobilizam a análise de correspondência em artigos em Actes de la recherche en sciences sociales que constroem campos (campo das vanguardas artísticas, campo literário, campo dos economistas, campo cinematográfico, etc.), que estudam o mercado matrimonial, a transferência de propriedades agrícolas, os usos da TI, cartas de denúncia, etc. Se os ACM de La Distinction e La Noblesse d’État se relacionam com pesquisas por questionário conduzidas pelo CSE, os outros ACM publicados por Bourdieu são baseados em prosopografias. O ACM às vezes apareceu, particularmente no exterior, como "método estatístico de Bourdieu" [Le Roux e Rouanet 2010: 4]. É verdade que é pouco conhecida fora da França, e Bourdieu sublinha suas afinidades com o modo relacional de pensamento que ele se esforça para implementar na sociologia [Respostas: 72]. Além disso, se a análise de correspondência é certamente difícil de ser utilizada por pesquisadores nas ciências humanas antes da década de 1970, Bourdieu a apropria num momento em que formula cada vez mais explicitamente a ambição de desenvolver uma "teoria de campo". No entanto, a ACM, como ele a utiliza, revela-se muito valiosa no estudo de espaços e campos sociais, em particular para trazer à tona sua estrutura e estudar a lógica que une posições e posturas. Ela representa, nesse sentido, um componente da sociologia dos campos, mesmo que, por um lado, certas análises de campo não a recorram e, por outro, as publicações de Bourdieu contendo ACMs sempre mobilizem, juntamente com estas últimas, materiais obtidos por entrevistas ou técnicas etnográficas.
Tecnicamente, a ACM nos permite sintetizar ou "resumir", particularmente em forma gráfica, as informações contidas em tabelas grandes. Para se ter uma ideia de seus princípios, é importante lembrar que tais tabelas poderiam, idealmente, ser representadas graficamente: embora seja fácil plotar as informações contidas em uma tabela (que pode ser submetida a uma ACP) contendo duas variáveis quantitativas para uma dada população em um gráfico bidimensional, é concebível que seja teoricamente possível representar uma tabela contendo n variáveis quantitativas por um diagrama de dispersão em um espaço n-dimensional. O princípio da ACP (e a ACM não funciona de forma muito diferente, com as modalidades das variáveis – "homens", "mulheres", por exemplo – desempenhando um papel comparável ao das variáveis em uma ACP) consiste em examinar esse diagrama de dispersão em um espaço de pequena dimensão (os "planos fatoriais") que melhor preserva sua forma. Geometricamente, a ACP opera apenas uma mudança de referência que, embora envolva cálculos complicados, é bastante comparável à operação que se realiza intuitivamente quando se busca restaurar um volume em três dimensões por meio de um desenho (em duas dimensões) e sem o uso de técnicas de perspectiva; ou quando a arte egípcia, por exemplo, representa os pés de "perfil", pois esta é a direção que melhor explica seu volume. Os gráficos da ACP representam a nuvem, por um lado, das modalidades das variáveis (as propriedades dos acadêmicos, por exemplo, no Homo academicus) e, por outro, dos indivíduos (os próprios acadêmicos), na nova referência determinada de modo que os eixos correspondam às linhas de estiramento máximo da nuvem ou, se preferir, aos princípios fundamentais da estruturação dos dados submetidos à análise.
Bourdieu tinha uma intuição muito forte sobre as propriedades geométricas das ACM e seu interesse no contexto do raciocínio relacional [Rouanet et al., 2000]. A distribuição das modalidades nos espaços das ACM leva ao estudo das propriedades, não em si mesmas, mas nas relações que mantêm entre si. No primeiro eixo do gráfico do “gosto dominante” em La Distinction, a modalidade que representa O Cravo Bem Temperado está muito próxima da modalidade “Kandinsky” ou da modalidade associada ao cantor Jacques Douai; está muito distante, no entanto, das modalidades de O Danúbio Azul, do pintor Rafael ou do cantor Guétary. Essa distribuição de modalidades no primeiro eixo corrobora muitas das hipóteses sociológicas de Bourdieu: O Cravo Bem Temperado, Kandinsky e Douai, escolhidos por um pequeno número de entrevistados, pertencem à mesma família de gostos distintivos, enquanto O Danúbio Azul, Rafael e Guétary formam uma família de gostos muito mais disseminada; O Cravo Bem Temperado é, na música, para O Danúbio Azul o que, no campo da pintura, Kandinsky é para Rafael; O Cravo Bem Temperado e O Danúbio Azul são muito distantes porque estão associados a gostos que se excluem um do outro, o que está em consonância com a análise dos gostos em sua relação com os desgostos. Bourdieu também utiliza em Distinção a técnica conhecida como elementos suplementares (ou "ilustrativos"), que consiste em projetar, no espaço da ACM, variáveis que não estiveram envolvidas em sua construção. Essa técnica lhe permite estabelecer empiricamente os pontos centrais de sua demonstração: o espaço dos estilos de vida e o espaço social são homólogos entre si; os "estilos de vida" são negados às classes sociais; os sistemas de gosto estão enraizados nas condições de existência dos grupos e, portanto, em sua posição no espaço social.
A análise de correspondência faz parte de um modo estrutural de pensamento. Nesse sentido, ela contrasta com as técnicas de regressão, muito mais difundidas na sociologia quantitativa, que medem o efeito "específico" de uma variável neutralizando os efeitos estruturais. A atração de Bourdieu pela ACM se devia, em parte, ao fato de que ela lhe permitia escapar de uma "sociologia das variáveis" que tende a ignorar a "causalidade estrutural" [Di: 113-116]. Ele sem dúvida também estava ciente de que, como Benzécri frequentemente dizia, a ACM elimina as hipóteses a priori de que as técnicas mais utilizadas no mundo anglo-saxão se multiplicam: essas hipóteses só podem encorajar, para usar uma frase de Marx frequentemente citada por Bourdieu, "tomar as coisas da lógica pela lógica das coisas". Ele não via, contudo, nela uma técnica capaz de extrair de qualquer conjunto de dados os princípios estruturantes que organizam o mundo social. Pelo contrário, ele a entendia como uma ferramenta para a construção científica e estava muito atento à maneira como, em cada caso particular, a tabela submetida à análise deveria ser desenvolvida para identificar a estrutura do campo estudado. Além disso, ao mesmo tempo em que explorava plenamente as afinidades da técnica com a teoria de campos, também trabalhava para neutralizar certos efeitos que provavelmente seriam prejudiciais à análise de espaços sociais [Duval 2013]. A ACM permaneceu desconhecida por muito tempo fora da França. Na sociologia, um ponto de virada ocorreu nos anos 2000 com a realização, em diferentes países, de pesquisas fortemente inspiradas nas pesquisas e técnicas estatísticas utilizadas em La Distinction e La Noblesse d’État [Rosenlund 2000; 2014; Pereira 2005; Prieur, Bennett et al. 2009; Hjellbrekke e Korsnes 2009; Roose, van Eijck e Lievens 2012]. Essa difusão da ACM não é alheia ao trabalho de Henry Rouanet e Brigitte Le Roux para desenvolver (e divulgar fora do mundo francófono) uma “análise geométrica de dados” da qual pesquisadores em ciências sociais podem se beneficiar, particularmente na análise de espaços sociais [Le Roux e Rouanet 2004; 2010].
Julien Duval
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