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Bernard Lahire e a recepção científica da literatura dos dominados: o caso de Annie Ernaux

Comentário ao artigo “Annie Ernaux et la sociologie”. Referência eletrônica: Bernard Lahire, « Annie Ernaux et la sociologie », Écrire l'histoire [En ligne], 23 | 2023, mis en ligne le 01 octobre 2024, consulté le 27 août 2025. URL : http://journals.openedition.org/elh/3674 ; DOI : https://doi.org/10.4000/elh.3674

“As citações que consegui extrair da obra literária de Annie Ernaux, no entanto, nunca buscaram torná-la uma socióloga (ou etnóloga) de sua origem, nem mesmo um caso exemplar de transfuga de classe. Para mim, e não se trata de um julgamento depreciativo da autora, tratava-se de material empírico como qualquer outro, que simplesmente tinha uma relevância científica particular, dada a óbvia preocupação de escrever o mais próximo possível da experiência vivida, sem qualquer intenção romântica e, em particular, sem esconder nada dos sentimentos mais terríveis que às vezes se sentem em relação aos próprios pais”.

Bernard Lahire tem perspicácia no que expõe, cientificamente rigoroso. Porém, por não usar a noção de campo não consegue entender como a posição de fronteira é um fato objetivo e os próprios limites disciplinares são uma disputa contínua, formam fronteiras maleáveis. Sem o grau de formalização do argumento dele, eu já havia esboçado coisa semelhante ao levantar as obras de "literatura sociológica" e ter buscado pensar o que é que gera seu particular empenho coletivo recente. 

A TENDÊNCIA MUNDIAL

Vale observar que para além do Nobel de Ernaux, Edouard Louis e Didier Eribon também vem recebendo uma audiência significativa no Brasil, principalmente em setores progressistas. Fora isso, os últimos anos assistiram em função do assassinato de Floyd uma ascensão do interesse pelo combate ao racismo que não só elevou alguns intelectuais a posições de destaque nacional como reascendeu um interesse indireto por escritoras e escritores negros, de origens populares ou que tematizassem os conflitos sociais do Brasil: Jeferson Tenório, Conceição Evaristo, Elisa Lucinda, Carolina Maria de Jesus e tantos outros representantes do que se chama cada vez mais de "literatura negra" nacional ou internacional, dado que não raro se fala mais do que antes em Toni Morrison ou James Baldwin também. Esse não é o foco do presente texto, mas não deixa de interessar esse movimento mundial, ainda que com suas particularidades em cada campo nacional, onde uma literatura feita por minorias sociais ganha destaque público. Dito isso, não é preciso pressupor uma homogeneidade estética entre esses autores de diferentes tendências, o gosto do público leitor já se encarrega por fazer tal síntese do múltiplo.

AO GOSTO DO PÚBLICO: A LITERATURA COMO DOCUMENTO E COMO PROVA

A propensão ao gosto realista, que é um gosto de classe, ao reunir objetivamente interesses por obras um tanto distantes (no tempo e espaço social) e com variação razoável no grau de teorização de seus projetos estéticos, faz com que tais obras sejam tomadas quase que em bloco como representantes de uma literatura "realista" ou, interessantemente, como "sociológica" (penso aqui que não seria improvável encontrar algum artigo classificando Carolina Maria de Jesus como uma literatura sociológica ou etnográfica). Tal junção que toma por sinônimos sociologia e realismo deveria nos obrigar a pôr a questão: qual significado desses predicados? Obras de autores que vem de origens sociais abastadas também não seriam "literatura sociológica"? O que fazer com toda uma tradição literária que animou a reflexão sociológica, por exemplo, com F. Kafka? Se pensarmos no status da obra de Proust e Flaubert para a teorização de Bourdieu, mas também em "parceiros" menos lembrados como J. Joyce, V. Woolf ou W. Faulkner ou no significado da obra de Goethe para Marx e Weber - logo compreenderemos que a relação com a literatura na sociologia e seus modos de recepção (como prova explicativa ou como documento sociológico a ser explicado) estar a mercê do jogo entre as características artísticas intrínsecas, a posição da obra no campo literário e a historia do campo de recepção onde o cientista está posicionado. Retroativamente, isso seria a chave para compreender a posição tomada por B. Lahire, G
 Sapiro e R. Lagrave em relação a obra de A. Ernaux.

LEITURA DUPLA E TRIPLA HISTORICIZAÇÃO

Assim, a "teoria" da "antificção" em Ernaux deveria ser lida em "dois tempos", com uma "dupla leitura": tanto um coroamento dessa tendência dispersa de crítica social na literatura como fundamento teórico para novos autores (como é o caso de Édouard Louis que certamente a toma como referência estética).
Destaque-se que tal tendência não é necessariamente uma intenção dos autores - ou dos leitores.
Num primeiro momento pensamos em teorizar essa tendência enquanto “uma demanda do público leitor nos campos em que eles se localizam (o que torna uma obra de literatura um deleite ou um documento)”. Contudo, isso seria perder as mediações. Melhor seria postular que se trata de uma convergência relativa de uma tripla historia: 

1. do campo literário: a gênese desse estilo, suas condições artísticas e sociais de consagração;
2. do campo escolar não só no sentido da origem social de tais escritores, como também da massificação da escolarização que faz surgir um público leitor com demandas particulares e que mais do que uma "catarse" podem experimentar nesses textos uma relativa "anamnese", mesmo que nem toda relação de um transfuga de classe com suas origens sociais seja de desprezo ou fúria, como em Ernaux;
3. do campo científico que irá disputar o status dessa literatura enquanto "documento a ser explicado" ou enquanto "prova da realidade" sendo cada posição tomada em apropriação de tais bens simbólicos um sinal da posição do campo de seu possuidor. "Sem saber" ou melhor, sem assumir, Lahire capta os modos de recepção científicos de tais cientistas, porém, faz uma crítica deles em "defesa da autonomia da ciência". Por isso, sua interpretação perde a possibilidade (mas sua teoria não lhe permite ver assim, sua visão é necessária e coerente com sua teorização) de compreender a obra literária como um instrumento particular (pinturas não poderiam funcionar tão bem para tais fins) nas disputas científicas, caso particular das disputas sociais. De modo prático, as obras são tomadas enquanto instrumentos de defesa de posições teóricas (e convicções éticas, pois é do ethos que se trata).

ENTRE ESTÉTICA NEGATIVA E TESTEMUNHO REALISTA: ANTIFICÇÃO

Fora isso, tal tipo de "literatura sociológica" ainda recompensa a boa vontade política de todo "lector" leigo que sempre quer dizer algo de real sobre o mundo, que quer estar inteirado com as modas do momento, que se sente atraído por obras com tais características, guardando ainda essa certa intenção anti-estética o sinal de uma estética negativa, estética dos (re)negados, estética dos dominados.


Dessa perspectiva se torna compreensível tanto a posição de quem faz críticas artísticas a Ernaux (ou aos seus pupilos), como de outros e outras "escritoras periféricas" (termo artística e politicamente horroroso) como quem critica a recepção de Ernaux dentro das próprias ciências sociais. Em certa medida, ambos os críticos defendem a autonomia dos campos, defendem as fronteiras, defendem toda a tradição acumulada na ciência e nas letras e, principalmente, defendem as distâncias entre os dois mundos e entre ambos e o "gosto leigo" ou "gosto bárbaro" sedento por realismo, por realidade, que são naturalmente antificciosos, que possuem uma "resistência [de classe] à fabulação" (S. B.).

Assim, ao não mobilizar a noção de campo, Lahire vê a literatura de Ernaux apenas como dado empírico e não como peça numa luta intercampos, onde ciência e literatura disputam fronteiras e públicos. Sua recusa o impede de se perceber como parte interessada nessa luta.

A recepção de Ernaux mostra, portanto, não apenas a força de uma literatura dos dominados, mas também como os campos da ciência e da arte se reposicionam diante dela, disputando a fronteira sempre instável entre realidade e ficção, documento e prova, arte, ciência...e política.

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