“ A autenticidade é, em outras palavras, efeito alcançado pela performance , ao contrário de atributo inato. Daí a relevância de dedicar atenção a performances sociais da genitália, conforme fizemos neste artigo, observando que existem políticas córporeo-generificantes implicadas em relações de poder nas quais as performances da genitália estão necessariamente inscritas.”
O homo academicus que persiste em ver a vida como um grande teatro onde os agentes são atores, o mundo é texto e sua meta é alcancar a performance mais autêntica de sua vontade. É uma elevação do fetiche à esfera pública tratando-o como base da auto-imagem ou, em termos mais históricos, é um efeito da elevação da presença da vida de artista de vanguarda na sociedade favorecido por uma elevação quantitativa das ciências humanas naquilo que ela tem de mais pobre e falsamente disruptivo: o construtivismo social individualista e idealista. Eu só destacaria um movimento sutil que ocorre nisso: mesmo que o corpo assuma lugar de uma passividade absoluta diante do ímpeto performático, este ímpeto é superdeterminado pelas disposições sociais que incrementam as disposições biológicas, isto é, se o mundo é encarado como fluxo de desejo e performance, todo sentido dos comportamentos é visto como arbitrário e contingente ao modo do "basta querer para ter/mudar". Concepção idealista do mundo e, fruto de uma posição dominante (acadêmica, teoricista, masculina, observadora/voyeurista) realiza o mesmo movimento clássico a história dos grandes ascetismos: o dominante que pode abandonar seu castelo e, por escolha, passa a viver a vida dos pobres e reconhece, assim, a superficialidade das distinções convencionais e acessa a uma "verdade superior". Dominar, mais uma vez, essencialmente como poder ter acesso a vida dos outros enquanto que o dominado se define pela restrição a "sua própria vida" delimitada pelas instituições coletivas. Essa variação da experiência incrementa a individualidade, a “autenticidade atingida pela performance” enquanto que ao dominado sobra a invariação e a prisão no "mundo inautêntico" regido pelos limites da combinação entre a ordem social e a ordem biológica.
A variação, apresentada no construtivismo performativo como liberdade estética ou potência criadora, é, no fundo, um privilégio estrutural. No mundo social, só varia quem pode escolher variar; só experimenta o arbitrário quem já dispõe do necessário. O que na fenomenologia aparece como “variação imaginária” — um exercício intelectual de modificação das circunstâncias para alcançar a essência —, na vida social converte-se em luxo material: o direito de ensaiar modos de ser sem perder a segurança da posição. O príncipe que abandona o palácio para descobrir a dor do mundo, como o Buda, é a metáfora inaugural dessa estrutura: pode sair porque tem onde voltar. Seu gesto ascético é a própria forma espiritual da dominação. O mesmo ocorre com o intelectual ou artista contemporâneo que “experimenta” o corpo do outro, o sofrimento do outro, a vida do outro, como performance: vive o alheio por brincadeira, por escolha. Para o dominado, ao contrário, a vida não é variação, mas destino; a invariação é sua forma de coerção. A “autenticidade performada” não é, portanto, libertação, mas a estilização moral do privilégio — a ilusão de que todos estão igualmente livres para viver o que não são.
O ideal do lector participa da mesma metafísica. Ler é, por definição, viver a vida dos outros — de outras sociedades, de outras épocas —, mas fazê-lo de modo imune. A leitura é a variação sem risco: o acesso simbólico à experiência alheia, sob o abrigo da solidão protegida. É a forma espiritual da dominação moderna, o luxo de poder transformar o mundo em texto. O leitor, como o dominante, não se desloca: projeta-se. Ele não abandona seu lugar, apenas o multiplica. Não compreende o outro, mas tem uma “vontade de cópia”. Essa “metafísica de leitor” é a tradução intelectual do mesmo gesto do Buda que sai do palácio — experimentar o outro para confirmar, ao fim, a centralidade de sua própria consciência.
É essa mesma metafísica que ressurge, com roupagem acadêmica, no artigo de Bonfante e Gonzalez, quando afirmam que “a autenticidade é, em outras palavras, efeito alcançado pela performance”. A frase, que pretende libertar o corpo da essência, apenas reinscreve o ideal pequeno-burguês da variação ilimitada: a crença de que o ser pode ser reinventado à vontade, como se o corpo e o desejo não estivessem enredados em determinações materiais. A performance torna-se o novo nome da vontade de poder — o direito de se experimentar a si mesmo e aos outros como superfície de expressão. Sob o pretexto de desestabilizar normas, reafirma-se o privilégio de quem pode brincar de desconstruir o mundo sem jamais ser destruído por ele.
A solidariedade política entre grupos dominados não precisa, nem deve, passar por essa estetização da experiência da alteridade. Há um elemento de irredutibilidade na experiência do outro, inscrito na própria individuação social e biológica, que torna impossível a verdadeira “emulação” de traços especificantes de sua experiência (haveria certo elemento compulsivo ou fetichista nisso). Fundar a solidariedade nesse tipo de exercício performático é um equívoco epistemológico e um erro político. Não se trata de sentir o que o outro sente, mas de compreender as condições que o fazem sentir o que sente. Esse tipo de performance não abole a distinção: a reforça. É o gesto simbólico do dominante que, sob o pretexto de empatia, converte a dor alheia em espetáculo e reafirma seu poder de variar.
Além disso, nem tudo na vida social é performance. Há sangue, há dor, há corpos que não podem ser “reciclados” por metáfora alguma. Há limites que não se transformam em imagem sem trair o real que os funda. Chega a ser desrespeitoso crer que expelir uma boneca pelo ânus possa “emular” um parto em um homem — como se a dor, a materialidade, o risco e a pressão social que determina a gravidez e o nascimento pudessem ser traduzidos e reduzidos em ato e jogos de linguagem. A vida não é brincadeira, como parece pressupor inconscientemente esse tipo de texto, quando afirma que “o faz de conta, como qualquer produção de imagens, é performativo, intervém na realidade, tem potencial transformador.” O faz de conta, aqui, é apenas a forma pós-moderna da antiga ilusão idealista: a crença de que o mundo se muda pela imaginação e que o outro é uma extensa do meu intelecto.
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