Gabriel: Sua pesquisa sobre jovens motociclistas informais e precarizados se impõe como necessidade histórica e científica
Alberto: é peso demais. bom dia mano
Gabriel: Você ao invés de fazer a pesquisa... se tornou a pesquisa
Alberto: kkkkk é que nesse caso eu só me atrevi a querer ser pesquisador. mas as condições são outras 🤣 o mundo é muito bem estabelecido nesse sentido. duro
Gabriel: o mundo não é tão duro assim. também não é mole. Ele tem seus momentos duros e moles
Alberto: quem dera fosse 😳😂😂
Gabriel: Sempre tente ponderar com o outro lado, olhar pelo lado bom quando se está no lado ruim. pelo menos imaginar. A vida é um lado que pode ser bom ou ruim... Velho, aquele projeto de pesquisa não pode ficar parado e não diga que você "só se atreveu a ser pesquisador", cara. É porque você não pôde entrar de cabeça o bastante. Digo de verdade mesmo.
Alberto: tô de boa mano. decidi dar um tempo do campo. pelo menos até estabelecer uma rotina mais calma pra adentrar de fato nos estudos. não dá pra ficar fazendo as coisas pela metade. meu filho. a mãe dele. a exigência de trampo. entre outras paradas, vem me puxando bastante. vou focar em algo q me contemple pessoalmente tbm. do q aprendi a me fazer e do q o mundo me fez. quero focar em abastecer minha realidade primeiramente. quero botar mais fé no q já sei fazer e consigo desenrolar que é a arte e tal
Gabriel: cara, isso é um erro e você sabe
Alberto: em paralelo com os corres de sempre
Gabriel: foi sua realidade que te colocou nisso. pelo menos tente adquirir seu diploma, isso vai te dar um aporte importante
Alberto: isso sim. vou terminar a graduação mas n quero seguir no mestrado. até havia conversado com joão rapidamente sobre essa ideia. pelo menos n agr
Gabriel: você dizer isso e conversar com joão sobre isso não são coisas boas
Alberto: e a graduação tbm n quero deixar q me mate. meu espírito. Vou fazer devagar mesmo até próximo ano
Gabriel: meu deus, cara
Alberto: e aproveitar os auxílios financeiros da universidade por mais tempo. O auxílio moradia e o restaurante universitário ainda ajudam muito minha renda
Gabriel: isso não é você falando, é a necessidade econômica saindo da sua boca.
Alberto: sei lá mano
Gabriel: eu entendo tudo o que você está dizendo, mas não posso concordar.
Alberto: as vzs é uma necessidade de algo que eu sou tbm tlgdo kkkkk
Gabriel: boy, olha da onde tu vem, o mundo que te fez, a violência dele: é isso que tu e mais da metade do brasileiro é, é isso que nós somos. Voltar pra "nossa realidade" é voltar pra esse esgoto da existência
Alberto: vai ver mano. eu é que tô negando quem eu sou a muito tempo… não botando fé no que gosto e sei fazer de fato. compreende? acho q se eu espremer eu consigo.
Gabriel: eu te conheço Alberto. e você não vai ser o primeiro e nem o último a dizer isso. você só tá (re)afirmando aquilo que você já tem e conhece pra se defender de um mundo que só te bate, que só te exclui.
Alberto: mas o esgoto da existência não muda se a gente só muda nossa realidade mano. vai continuar aí, com pesquisa ou não. meus manos morrendo, se machucando, ou melhor, sendo mortos.
Gabriel: bicho, deixe de falar em "meus manos morrendo". Esse é seu erro, não vê? você quase ia morrendo! você! você é esse "outro mano" que você fala. É você fecha os olhos pra isso. Você sabe muito bem que esses "seus manos" se entendessem sua situação concreta e o que você tem possibilidade de fazer te chamariam de otário na hora! E ainda iam dizer "eu no teu lugar deixava ia embora disso!".
Alberto: e então?! e eu decidi sair da moto, deixar de ser entregador e fazer Uber. não volto mais depois desse acidente. Vou desenrolar de outras maneiras
Gabriel: olha, tenta se ligya nisso: continuar essa conversa é ruim pra você, sabia? Porque quanto mais justificativas você dar dessa posição falsa mais essa posição falsa terá justificativas pra se fortalecer. É um ciclo vicioso do erro.
Eu paro e olho pra Alberto e vejo uma coisa, vejo um potencial, mas também vejo as dificuldades. Eu vejo Alberto de fora e ouvindo Alberto consigo entender como esse fora vai pra dentro. Por outro lado, Alberto quando vê Alberto, se vê de dentro, ele só consegue ver ou o que tá de um lado (a potência) ou o que tá no outro (a realidade dura).
Alberto, assim como qualquer pessoa, assim como eu, só consegue ver uma coisa de cada vez, o que é normal. Ver pra além dos olhos e agir a partir dessa "visão de fora", dessa "visão que não é minha" é uma coisa difícil. É por isso que é bom ter amigos que não estão no "mesmo lugar", que estão mais distantes da gente. Esses amigos nos veem de maneira mais completa, e conseguem gritar: "ei, mano, vai pela esquerda que pela direita tá difícil" ou esses amigos também podem jogar uma corda pra puxar a gente.
Essa ideia de "querer voltar pra o nosso mundo" sempre é uma ilusão também. Sabe por que? O "Alberto" ou o "Gabriel" que saíram de seu mundo de origem mudaram e a pior parte: seu mundo também mudou. Não existe isso de "voltar". Sempre que voltamos estamos indo para um lugar tão novo como aquele lugar de onde queremos sair exatamente porque é novo.
Tudo o que é novo nos assusta, nos faz querer voltar pra nosso lugar comum, pro nosso lugar de origem, esse é o desafio. Eu falei a mesma coisa pra João outro dia.
E outra coisa: a dor afeta nosso pensamento e nossas escolhas. Sempre desconfie de seus pensamentos, reflexões e poesias feitos enquanto seu corpo está machucado, com dor. Serão pensamentos doloridos, pensamentos feridos. sempre lembre disso, sempre lembre de desconfiar quando se diz "eu penso".
Alberto, o mundo fez dos jovens da classe trabalhadora "ratos" e muitas vezes a sociedade se orgulha disso! O dominado aceita aquilo que o dominante diz que ele é. Esse é o esgoto do mundo, da dominação. o "nosso mundo", "nossa favela", não é nossa, é "deles".
Faz sentido? respira, meu irmão! se recupera, vai devagarzinho! não seja tão duro e realista consigo mesmo. Esse realismo é o pior tipo de idealismo: é a idealização da dor, é a poesia da nossa exclusão.
Abraço!
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