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A precariedade do sociólogo-aprendiz e a sociologia do precariado

1. Apresentação

No ano de 2025 problemas estruturais do Brasil estão vindo à tona em múltiplos sinais. Se os teóricos já falavam das crises do capitalismo e dos efeitos das transformações nacionais e internacionais do "mundo do trabalho", isso se torna cada vez mais palpável na "esfera pública" ou melhor, no campo de produção cultural através da remissão ao problema da desclassificação social, da desvalorização dos diplomas. Ainda assim, esses fenômenos raramente são chamados pelo nome. Jornais de circulação nacional trazem quase que diariamente dados demográficos - com toda naturalização da dominação que esse tipo de realidade produz - apontando a profunda desigualdade de renda que dividem as classes sociais brasileiras, mostram como as elites políticas e judiciárias possuem relações umbilicais com o mundo econômico e, muitas vezes, vem exercendo uma dominação há duas, três, quatro gerações. Ainda no ímpeto do combate ao racismo, se por um lado o governo federal faz publicações em sua conta do instagram apresentando que 52% dos inscritos em universidades públicas brasileiras são negros diferentemente dos pouco mais de 5% que compunham esses quadros nos anos 1990, por outro lado, se vê que a desigualdade econômico-racial continua forte: não houve diversificação nos setores de comando de empresas privadas ou públicas, a transformação do nível de escolaridade das classes populares brasileiras não veio acompanhadas da tão sonhada "conversão econômica" do diploma em salários e os setores de serviços e de trabalhos manuais não qualificados continuam a empregar a maior parte da população negra.
Essa conjunção de fatores que torna nossa experiência social extremamente complexa geralmente é "convocada" pelo termo "neoliberalismo". Tudo é neoliberal hoje, assim como há anos atrás tudo era "líquido", "globalizado", "pós-moderno" etc. O que convém aqui é situar que vivemos o curso de um processo de capitalização radical de nossas vidas, isto é, uma redução quantitativa ou uma certa "metrificação". Se fiz essa tentativa de introdução foi unicamente para convocar esquemas interpretativos que tornem a leitura do que se segue mais sutil.

2. Um sociólogo pela metade

A conversa que se segue se deu com um jovem negro que faz bacharelado em ciências sociais em uma universidade nordestina. Migrou do interior de um estado para a capital de outro pouco antes da pandemia e nessa capital foi músico de rua, tatuador e motoboy. Entrou para o ensino superior e por sua condição social logo conseguiu acessar auxílios estudantis em sua universidade. Nesse ínterim tornou-se pai e separou-se da mãe de seu filho - não esqueçamos que, iniciando sua graduação em 2020, teve parte importante do curso feita à distância tendo sua experiência acadêmica retardada significativamente.
Devido às necessidades econômicas que enfrentava juntamente com sua mãe raramente pôde se dedicar exclusivamente à vida universitária nem tampouco ao mundo do trabalho. Por um efeito de atração, mesmo sendo do bacharelado com curso vespertino, por força das coisas, fez muitas disciplinas e adquiriu a maior parte dos amigos da licenciatura, noturna, composta por um perfil de alunos diferentes do bacharelado e mais semelhante ao seu. Começou a trabalhar como entregador com uma moto que comprou, mas com pouco tempo foi roubado por um deslize de atenção e com ajuda de sua mãe conseguiu financiar uma segunda moto.
Não vou me estender mais nessa caracterização, restando informar para amarrar o diálogo que se segue que no mês de setembro de 2025 sofreu um acidente em horário de trabalho. Um carro atingiu sua moto, quebrou suas costelas, deixou seu corpo cheio de escoriações e perfurou um de seus pulmões. Esse "sociólogo motoboy" misturava em si formas de ver o mundo desses dois mundos que ele vivia tão intensamente e, ainda assim, sempre pela metade. Um jovem dividido entre essas orientações mundanas e sagradas, entre o trabalho precário, a arte e a universidade; dividido entre a necessidade de ser pai de um bebê e viver sob a urgência de ter de lhe enviar provimentos econômicos e de ser aluno de graduação, isto é, alguém que "não trabalha de verdade" e que precisa ter paciência para alcançar aquilo idealizado pela titulação.
A conversa a seguir, com esse amigo, condensa muitas das contradições estruturais da experiência de ocupar as posições mais dominadas no campo social, em geral, e no acadêmico, em particular. Ela faz parte de um projeto mais amplo que tenho de mapear a experiências de jovens das frações mais precárias das classes populares e seus "modos de usar" sua posição acadêmica.

3. O diálogo


Gabriel: Sua pesquisa sobre jovens motociclistas informais e precarizados se impõe como necessidade histórica e científica

Alberto: é peso demais. bom dia mano

Gabriel: Você ao invés de fazer a pesquisa... se tornou a pesquisa

Alberto: kkkkk é que nesse caso eu só me atrevi a querer ser pesquisador. mas as condições são outras 🤣 o mundo é muito bem estabelecido nesse sentido. duro

Gabriel: o mundo não é tão duro assim. também não é mole. Ele tem seus momentos duros e moles

Alberto: quem dera fosse 😳😂😂

Gabriel: Sempre tente ponderar com o outro lado, olhar pelo lado bom quando se está no lado ruim. pelo menos imaginar. A vida é um lado que pode ser bom ou ruim... Velho, aquele projeto de pesquisa não pode ficar parado e não diga que você "só se atreveu a ser pesquisador", cara. É porque você não pôde entrar de cabeça o bastante. Digo de verdade mesmo.

Alberto: tô de boa mano. decidi dar um tempo do campo. pelo menos até estabelecer uma rotina mais calma pra adentrar de fato nos estudos. não dá pra ficar fazendo as coisas pela metade. meu filho. a mãe dele. a exigência de trampo. entre outras paradas, vem me puxando bastante. vou focar em algo q me contemple pessoalmente tbm. do q aprendi a me fazer e do q o mundo me fez. quero focar em abastecer minha realidade primeiramente. quero botar mais fé no q já sei fazer e consigo desenrolar que é a arte e tal

Gabriel: cara, isso é um erro e você sabe

Alberto: em paralelo com os corres de sempre

Gabriel: foi sua realidade que te colocou nisso. pelo menos tente adquirir seu diploma, isso vai te dar um aporte importante

Alberto: isso sim. vou terminar a graduação mas n quero seguir no mestrado. até havia conversado com joão rapidamente sobre essa ideia. pelo menos n agr

Gabriel: você dizer isso e conversar com joão sobre isso não são coisas boas

Alberto: e a graduação tbm n quero deixar q me mate. meu espírito. Vou fazer devagar mesmo até próximo ano

Gabriel: meu deus, cara

Alberto: e aproveitar os auxílios financeiros da universidade por mais tempo. O auxílio moradia e o restaurante universitário ainda ajudam muito minha renda

Gabriel: isso não é você falando, é a necessidade econômica saindo da sua boca.

Alberto: sei lá mano

Gabriel: eu entendo tudo o que você está dizendo, mas não posso concordar.

Alberto: as vzs é uma necessidade de algo que eu sou tbm tlgdo kkkkk

Gabriel: boy, olha da onde tu vem, o mundo que te fez, a violência dele: é isso que tu e mais da metade do brasileiro é, é isso que nós somos. Voltar pra "nossa realidade" é voltar pra esse esgoto da existência

Alberto: vai ver mano. eu é que tô negando quem eu sou a muito tempo… não botando fé no que gosto e sei fazer de fato. compreende? acho q se eu espremer eu consigo.

Gabriel: eu te conheço Alberto. e você não vai ser o primeiro e nem o último a dizer isso. você só tá (re)afirmando aquilo que você já tem e conhece pra se defender de um mundo que só te bate, que só te exclui.

Alberto: mas o esgoto da existência não muda se a gente só muda nossa realidade mano. vai continuar aí, com pesquisa ou não. meus manos morrendo, se machucando, ou melhor, sendo mortos.

Gabriel: bicho, deixe de falar em "meus manos morrendo". Esse é seu erro, não vê? você quase ia morrendo! você! você é esse "outro mano" que você fala. É você fecha os olhos pra isso. Você sabe muito bem que esses "seus manos" se entendessem sua situação concreta e o que você tem possibilidade de fazer te chamariam de otário na hora! E ainda iam dizer "eu no teu lugar deixava ia embora disso!". 

Alberto: e então?! e eu decidi sair da moto, deixar de ser entregador e fazer Uber. não volto mais depois desse acidente. Vou desenrolar de outras maneiras

Gabriel: olha, tenta se ligya nisso: continuar essa conversa é ruim pra você, sabia? Porque quanto mais justificativas você dar dessa posição falsa mais essa posição falsa terá justificativas pra se fortalecer. É um ciclo vicioso do erro.

Eu paro e olho pra Alberto e vejo uma coisa, vejo um potencial, mas também vejo as dificuldades. Eu vejo Alberto de fora e ouvindo Alberto consigo entender como esse fora vai pra dentro. Por outro lado, Alberto quando vê Alberto, se vê de dentro, ele só consegue ver ou o que tá de um lado (a potência) ou o que tá no outro (a realidade dura).

Alberto, assim como qualquer pessoa, assim como eu, só consegue ver uma coisa de cada vez, o que é normal. Ver pra além dos olhos e agir a partir dessa "visão de fora", dessa "visão que não é minha" é uma coisa difícil. É por isso que é bom ter amigos que não estão no "mesmo lugar", que estão mais distantes da gente. Esses amigos nos veem de maneira mais completa, e conseguem gritar: "ei, mano, vai pela esquerda que pela direita tá difícil" ou esses amigos também podem jogar uma corda pra puxar a gente.

Essa ideia de "querer voltar pra o nosso mundo" sempre é uma ilusão também. Sabe por que? O "Alberto" ou o "Gabriel" que saíram de seu mundo de origem mudaram e a pior parte: seu mundo também mudou. Não existe isso de "voltar". Sempre que voltamos estamos indo para um lugar tão novo como aquele lugar de onde queremos sair exatamente porque é novo.

Tudo o que é novo nos assusta, nos faz querer voltar pra nosso lugar comum, pro nosso lugar de origem, esse é o desafio. Eu falei a mesma coisa pra João outro dia.

E outra coisa: a dor afeta nosso pensamento e nossas escolhas. Sempre desconfie de seus pensamentos, reflexões e poesias feitos enquanto seu corpo está machucado, com dor. Serão pensamentos doloridos, pensamentos feridos. sempre lembre disso, sempre lembre de desconfiar quando se diz "eu penso".

Alberto, o mundo fez dos jovens da classe trabalhadora "ratos" e muitas vezes a sociedade se orgulha disso! O dominado aceita aquilo que o dominante diz que ele é. Esse é o esgoto do mundo, da dominação. o "nosso mundo", "nossa favela", não é nossa, é "deles".

Faz sentido? respira, meu irmão! se recupera, vai devagarzinho! não seja tão duro e realista consigo mesmo. Esse realismo é o pior tipo de idealismo: é a idealização da dor, é a poesia da nossa exclusão.

Abraço!

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