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Dele&Dela. Uma tragédia incômoda?

Dele & Dela, suspense da Netflix lançado em janeiro de 2026, mantém-se entre os títulos mais assistidos da plataforma nesse início de ano. Estrelada por Tessa Thompson e Jon Bernthal, a série acompanha Anna, uma jornalista negra, e Jack, um detetive branco, casal que está vivendo uma crise após a morte da filha. O luto operou como uma força centrífuga levando Anna a desaparecer por um ano e Jack, depois de procurá-la obsessivamente, começar a seguir  sua vida passando a morar com a irmã, Zoe e buscando novos relacionamentos.

Tudo se altera na manhã em que se completa um ano da morte da criança. Rachel, uma mulher branca casada com um poderoso empresário local, aparece morta sob o capô do próprio carro, em meio à uma floresta que ficava —  como descobrimos ao longo da série, nos fundos do cemitério da cidade e próxima a sepultura da filha de Anna. O crime inaugura uma sequência de assassinatos que leva a polícia a suspeitar da existência de um serial killer local.

No dia em que o corpo é encontrado Anna também retorna à cidade e passa a disputar a retomada de seu antigo posto de âncora no jornal local, agora ocupado por Lexys Jonnes, mulher loira da elite local casada com o cameraman Richard, que será solicitado por Anna para lhe ajudar na matéria. Ao assumir a cobertura dos assassinatos, Anna pressiona a polícia — e especialmente o marido — por informações, eleva a audiência do programa e reabre tanto feridas públicas quanto privadas.

Com uma cadência narrativa eficiente, a série revela que todas as mulheres assassinadas compartilham um passado comum: os anos vividos em um internato católico local. É nesse ponto que os fios começam a se amarrar. Anna era filha de Alice, uma empregada doméstica negra que, a custo de enorme esforço, conseguiu uma vaga para a filha naquela instituição. Alice trabalhava na casa das outras meninas — jovens de classe média e alta — que orbitavam o núcleo de Anna e que, no presente, passaram a morrer uma a uma.

Esse grupo de meninas organizou, durante a adolescência, um sistema contínuo de assédio sexual e humilhação dirigido a Anna e a Lexys, então uma adolescente branca, acima do peso e alvo constante de bullying. O ponto culminante ocorreu no aniversário de 16 anos de Anna: Rachel embebeda o grupo e entrega Anna e Lexys para serem violentadas por três homens dentro de uma floresta.

À medida que os assassinatos avançam, a narrativa conduz o espectador à conclusão de que tudo se trata de uma vingança de Lexys, violentada, contra as antigas amigas. Essa hipótese se sustenta até a metade do episódio final, quando Lexys é morta por uma detetive ao tentar intervir em um confronto entre ela e Anna que girou em torno de um grande mal entendido entre as expectativas das duas: Anna é levada por Richard para a casa da família de Lexys, afastada da cidade. Chegando lá, ela descobre a identidade de Lexys e logo suspeita que os dois querem assassiná-la, iniciando uma briga corporal entre elas que culmina com Lexys recebendo um tiro da detetive parceira de Jack.

É nos minutos finais que ocorre a reviravolta central. Alice, até então retratada como uma idosa negra com problemas de memória, entrega à filha Anna uma carta, um ano depois do caso ter sido oficialmente encerrado. Nela, confessa ser a verdadeira serial killer. Sua motivação é simples e brutal: proteger a filha e fazer com que suas algozes pagassem pelo que lhe fizeram.

É somente então que a cena do passado se reconfigura por completo. Quando Lexys é jogada na cama pelos homens, Anna tenta intervir. Lexys, liberada das mãos dos homens a deixa para ser violentada, enquanto as outras garotas cantam “Parabéns pra você”. Alice, durante o ano que a sua filha passou distante, começou a assistir suas fitas de vídeo do período de adolescência onde assiste, sem saber, a gravação do dia em que esse acontecimento traumático ocorreu. 

Nessa cena final se mostra o cuidado dessa mãe negra que tentou oferecer à filha tudo o que lhe fora negado: justiça onde houve violência, encerramento onde houve repetição, libertação onde houve ferida. Dele & Dela não é uma série idílica, talvez porque os atos da mãe tenham um caráter pré-meditado. Não há respostas morais confortáveis nem consenso sobre o “certo a fazer” — ainda que esse fazer se volte explicitamente contra a lei dos homens (literalmente, dos homens).

No conjunto recente de produções da indústria cultural que tematizam lutas de classe, raça e gênero, a série se destaca por sua resolução final, alinhando-se a filmes como Pisque Duas Vezes (Blink Twice, 2024) e contrastando com o ideologicamente confuso Pecadores (Sinners, 2025). Aqui, a negatividade da luta de classes — centro ausente dos conflitos simbólicos contemporâneos — que é denegada ao longo de toda a narrativa através de conflitos particulares (a luta por sucesso profissional, as práticas de humilhação dentro do internato, os ciúmes entre os casais, as dores de um relacionamento sem diálogos etc) irrompe plenamente na carta final da doméstica negra.

Alice esteve ausente de todos os acontecimentos visíveis: isolada, afastada da cidade, tocada pela aparente demência, já incapaz de falar a língua comum. Mas é justamente essa figura marginal, socialmente invisível, que concentra a força política subterrânea da narrativa — por mais explícita que apareça nas últimas cenas: a circularidade do esquecimento, que empurra à repetição da violência, só é rompida por um ato igualmente violento que abre espaço para algo razoavelmente novo.

(Essa conclusão, diga-se, passa longe de qualquer realização politicamente utópica. As ações de Alice operam menos como redenção do que como reequilíbrio provisório das forças estruturantes que organizam a relação entre classes distintas, abrindo à filha o acesso real ao mundo pelo qual sempre lutou — o das classes médias de Atlanta. Em oposição à violência social herdada pelo ciclo de amigas, Alice dispõe apenas de sua astúcia, de sua invisibilidade como doméstica, de sua existência objetal entre os outros objetos das casas que limpava.

Esse “equilíbrio cósmico”, ainda assim, deixa pontas soltas, injustiças não reparadas: o cameraman Richard é preso injustamente; Anna segue vivendo com o conhecimento de que sua mãe foi responsável pelos assassinatos — inclusive pela morte da irmã de seu marido. Nada se resolve plenamente. Não há síntese estável, apenas novos silêncios e segredos que já não exigem ser ditos).

Se essa ruptura violenta é mais palatável em Pisque Duas Vezes, onde tudo se concentra em uma única situação, sem tempo para cálculo ou planejamento, talvez seja menos em Dele & Dela, justamente porque aqui a violência se organiza no tempo, admite espera, estratégia, premeditação. Poder-se-ia dizer que Alice “poderia ter recorrido aos meios legais”, mas esse tipo de objeção diz menos sobre a série do que sobre a expectativa normativa de um mundo em que a lei funcione como instância efetiva de justiça — expectativa particularmente frágil em sociedades marcadas pela letargia estatal diante da violência contra mulheres (como no Brasil).

As tragédias nunca se ocuparam do que deveria ter sido feito. Elas expõem, antes, o conflito insolúvel entre ordens simbólicas com diferentes graus de legitimidade, mas vividas pelo indivíduo como uma dolorosa contradição, como luta entre a lei dos homens e a lei da casa, entre a obediência à norma e a fidelidade ao vínculo. Em Dele & Dela, não se trata de justificar a violência, mas de reconhecer que, para que algo se movesse, ao menos uma das portas giratórias da repetição precisaria ser destruída. Isso não resolve o problema — jamais resolve —, no entanto, ainda que provisoriamente, interrompe a marcha automática do esquecimento e da repetição. Não é essa, afinal, a verdade incômoda que a tragédia insiste em nos fazer sentir?

Diferente do que ocorre em Pecadores, com seu simbolismo reacionário e sua aceitação tácita do lugar sombrio reservado aos trabalhadores negros, Dele & Dela recusa essa acomodação. Como Alice — a doméstica que domesticou as forças que ameaçavam sua prole — afirma na carta:
“Se for para fazer, é melhor fazer bem feito.”

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