Para leitura do texto aqui criticado:
https://red.org.br/noticias/manifesto-docente-defende-liberdade-academica-e-pluralismo-em-universidades-publicas/#google_vignette
Mais um texto dessa cruzada de classe que teme em enunciar e objetivar a sua real razão de ser. Cruzada de discentes e docentes, entre sociedade e universidade na qual os "discentes militantes" são elevados aos responsáveis pela imagem negativa da universidade junto a "sociedade brasileira", não a escalada da extrema-direita, anos de olavismo e de ataque às instituições e ao funcionalismo público. Manifesto que se não erra por completo em seu diagnóstico (de fato, há uma falta de "cultura acadêmica", há um antiacademicismo no interior da academia cada vez maior), erra em sua falta de paladar histórico: escola sem partido, ataque às supostas "ideologias de gênero" são posturas que não só se fortaleceram com a ascensão da direita brasileira desde 2013 como encontrou eco com políticos e propostas jurídicas que tentaram avançar essa agenda. Colocar tudo isso na conta da "cultura do cancelamento", no "identitarismo" e agora no "wokeísmo" é uma confusão, no mínimo, grosseira. Cito o trecho em que o manifesto fala das práticas de tirania dos demais poderes sobre a autonomia universitária mas não indicam concretamente quem foram — e quem são — os agentes da tirania:
"Quando a falta de pluralismo não é enfrentada internamente, a universidade fica exposta a
intervenções externas que tendem a agravar o desequilíbrio em vez de corrigi-lo. Nos Estados
Unidos, essa omissão inspirou tentativas de restringir conteúdos curriculares, reconfigurar ou
extinguir departamentos e interditar agendas de pesquisa. No Brasil, registram-se pressões na
mesma direção: tentativas de proibir disciplinas e cursos, questionamentos legislativos sobre
conteúdos ensinados, investigações por órgãos públicos e campanhas políticas e midiáticas
voltadas a constranger docentes. Em todos esses casos, o pêndulo se desloca na direção oposta,
trocando um tipo de desequilíbrio por outro".
E não é possível aqui não deixar de ouvir um certo eco das críticas e manifestações diante do convite de representantes do Estado de Israel e da manutenção de convênios com o mesmo, da parte de professores e funcionários que se posicionam sem fazê-lo explicitamente.
"O princípio da neutralidade institucional se aplica à gestão de convidados externos. Receber umpolítico de esquerda ou um líder de direita não implica aderir às suas ideias, mas ceder espaço
para que sejam debatidas. A universidade, portanto, não deve afirmar que convidados
representam seus valores". [Os manifestantes gostariam de parafrasear perversa e afirmativamente o título de Spivak: "O genocida pode falar"].
Continuando a leitura do manifesto, para continuar a expor o "espírito de autocensura" reinante na Universidade, nos dizem que: "Pesquisa do Instituto Sivis, com amostra representativa dos estudantes brasileiros de ensino superior, mostrou que 48% deles afirmam ter se autocensurado, evitando debater assuntos controversos em sala de aula". Contudo, a "autocensura" de opiniões em debate é aqui mais uma vez entendida como algo em si mesmo negativo, sem sequer se questionar se a posição que a "consciência moral" desses alunos bloqueou não poderia ser uma posição que não deveria ter lugar em um debate público. (Certamente, a posição exposta nesse texto, antipluralista na aparência, só se sustenta quando se tem por fundamento que existem posições indefensáveis — e é claro que ela não é consensual — ainda mais quando se pretende defender o princípio da pluralidade e tolerância in abstrato, mas quais seriam os limites do defensável em um debate? Caso se acredite que toda opinião é válida em si mesma e tem direito de se constituir enquanto tal, ignorem o que aqui se escreveu).
Bom, mas não tardou nessa manifestação em nome do bom e velho liberalismo universitário para que o direito à defesa a meritocracia universitária surgisse, ainda mais em um manifesto como esse no qual tantas "caras pálidas" e outros tantos sobrenomes que se fizeram presentes 20 anos atrás no Manifesto contra as Cotas aparecessem novamente¹:
"Condutas discriminatórias, tipificadas na legislação brasileira, devem ser apuradas e punidas pelos canais competentes. Isso, porém, não se confunde com a expressão de posições críticas sobre movimentos sociais e políticas públicas — inclusive aquelas voltadas à promoção da igualdade. Enquadrar argumentos acadêmicos como ofensas morais para silenciá-los é prática incompatível com a liberdade acadêmica".
Seria de se observar, como fez a professora Patrícia Vallim, o histórico de processos que muitos dos que assinaram esta carta possuem. (Se cada um de nós fizermos um exercício de "realismo político", como os tantos politólogos que assinaram esse manifesto tanto gostam, logo perceberemos que uma carta como essa tem mais valor simbólico de recomposição de grupo do que de enfrentamento concreto do problema real não tematizado nessa tão racional sublimação dos problemas de construção de uma cultura científica e racional).
De tudo o que foi dito aqui, gostaríamos que a pessoa que venha a ler essa crítica, concordando ou não com certas análises adiantadas, frise o seu elemento mais básico: colocar exclusivamente a "responsabilidade" (forma bonita de dizer "a culpa") pela imagem negativa da universidade possuída pela "sociedade brasileira" (essa coisa geral, sem corpo, cor, sexo ou classe) nas costas dos movimentos sociais (feministas, negro, indígenas, lgbtqpn+ etc.) é um erro científico e político promulgado por agentes que não expõem racionalmente as razões profundas de seus incômodos (legítimos ou não), isto é , agentes que não atendem em sua exposição os próprios critérios que eles apontam como sendo as regras de validação do jogo. Assim sendo, tais manifestantes que agem em nome da ciência se eximem da análise concreta do problema através do bode expiatório oculto, o responsável pelos problemas externos e internos da universidade brasileira. Os autores e autoras do manifesto parecem acreditar, do fundo das suas almas, que se não fosse a falta de cultura acadêmica dos "alunos militantes" a universidade e suas promessas inspirariam mais confiança nessa nação eleitora de Bolsonaro.
Tabelas de frequência com o perfil dos assinantes do manifesto
Se as abstrações do manifesto tentam nos convencer de uma preocupação universal e desinteressada com a "sociedade brasileira", a frieza dos números que delineiam o perfil dos seus assinantes nos devolve, sem meias palavras, à gravidade das posições objetivas no interior do campo acadêmico. As tabelas de frequência são o atestado empírico de que o suposto alcance nacional dessa cruzada possui um lugar muito bem definido. Com a USP reinando absoluta em número de assinaturas e o eixo Sul-Sudeste monopolizando a representatividade institucional, o que se enuncia como uma angústia da "universidade brasileira" frente à sua degradação não passa da universalização de um incômodo particular. Trata-se da ansiedade de uma fração acadêmica específica, encastelada nos centros de maior acúmulo de prestígio e capital científico do país, que toma sua própria perplexidade diante da desestabilização de suas hierarquias e rituais como a medida exata da crise nacional.
Contudo, é ao observarmos a distribuição disciplinar que o "inimigo ausente" ganha seu verdadeiro contorno através do rosto de quem o acusa. Quase a metade das assinaturas emana da Ciência Política. Não deixa de ser sintomático que os grandes entusiastas do "realismo político" — um subcampo historicamente afeito às análises institucionais, à ordem procedimental e ao cálculo da etiqueta democrática formal — sejam os que mais se sintam acossados pela presença do que chamam de "militância". Diante de movimentos sociais que tensionam a assepsia do debate e trazem para o campus contradições que não cabem no formalismo de suas cartilhas, esses agentes leem o conflito não como uma disputa legítima das relações de força, mas como uma quebra irracional da "cultura acadêmica".
Ao fim e ao cabo, o que o manifesto opera apoiado nesses dados é um formidável passe de mágica político: converte o desconforto de uma elite disciplinar (localizada na elite institucional) diante da perda de seu monopólio de consagração em um princípio moral. Para não terem de confessar abertamente a aversão de classe e a recusa em partilhar e disputar os espaços de legitimação com os setores que historicamente foram os objetos passivos de suas pesquisas, preferem sublimar a defesa da velha ordem em um manifesto altivo pela salvação do pluralismo e da razão.
Basta que qualquer leitor ou leitora percorra a lista nominal anexa ao manifesto e procure mais sobre suas trajetórias acadêmicas. Fazer isso dispensa grandes malabarismos analíticos porque o que se tem ali é a fotografia de corpo inteiro do alto clero acadêmico, particularmente, das ciências sociais (Ciência Política + Sociologia). A conexão é brutalmente transparente: há um alinhamento perfeito entre a centralidade das instituições de origem (a esmagadora hegemonia do eixo USP) e o imenso acúmulo de capital científico individual de seus signatários. Falamos de sobrenomes que, por décadas, presidiram associações nacionais, sentaram em comitês de fomento e tiveram o direito quase divino de ditar o que é ou não é "ciência legítima". Nomes como Maria Hermínia Tavares, Marta Arretche, Sérgio Adorno, Elisa Pereira Reis, Bernardo Sorj, Jairo Nicolau e Wilson Gomes não são apenas professores universitários em suas respectivas instituições; são intelectuais que ocupam, ou ocuparam, as posições de maior poder de consagração no campo das ciências humanas estando presentes tanto em instituições de área como também tendo suas análises projetadas nos grandes jornais nacionais.
A recepção do Manifesto
É de se observar como o Manifesto foi republicado em sites e jornais que tem sistematicamente uma postura "antiwoke" e "anti-identitária". A) A Revista Oeste, em especial, um dos principais meios de formação da direita brasileira. B) O site A terra é redonda concentrando publicações de intelectuais de esquerda de perfil mais ortodoxo e que elenca como mal da política nacional o identitarismo. C) O Estadão que, como qualquer pessoa razoavelmente informada sabe, sistematicamente ataca os direitos da classe trabalhadora de modo explícito.
O que chama atenção é como orgãos que representam diferentes classes sociais convergiram ao divulgarem esse manifesto político.
Além do mais, esse alinhamento objetivo entre, especificamente, intelectuais das Ciências Sociais com a grande e pequena mídia de direita e de esquerda mostra como uma mesma tendência política, de classe, está se expressando em formas variadas contra um "inimigo ausente": o discente militante, mal do rebaixamento da cultura universitária e da política brasileira.
O que torna mais brutal ainda esse processo é que na mesma semana em que tal manifesto foi publicado e divulgado alunos e alunas da USP, em greve, que ocuparam a reitoria da maior universidade da América Latina foram expulsos com extrema violência pela Polícia Militar de São Paulo. Os mesmos alunos que, certamente, atordoam o coração dos 14 professores que assinaram o manifesto em defesa do retorno da velha e boa vida universitária de onde a política em sua forma funesta e bárbara de "militância" estava ausente.
Obs: a alternância de tom que nossa crítica realiza pode cair nas amarras metadiscursivas do manifesto que elenca, sutilmente, a militância em desvario como bode expiatório do descrédito universitário. Contudo, seria de se pensar — em um debate onde pensar o que deveria ser pensado é expressamente proibido — se os elementos "ad hominem" que o presente texto recorre não fazem parte de uma "resistência à cegueira" solicitada sistemática e implicitamente para adentrar no debate sobre "ideias", como se tais ideias fossem desencarnadas, não representassem posições sociais e não surtissem efeitos para certas categorias. Mas como a análise posicional e crítica do discurso ultimamente caiu em descrédito (quase tudo que é próprio ao ofício intelectual se desvalorizou, não só "a universidade" como também essa atividade tão banal que é a escrita), resta à esse texto ser acusado como exemplo típico do que o manifesto ataca silenciosamente: incapaz de debater o pensamento sem considerar o sujeito que pensa — e a tradição tem muitos adjetivos para essa atitude: empirista, limitado, parcial, político, militante, vitimista etc.
A cordialidade acadêmica e suas trocas cotidianas pedem que critiquemos a falta de cultura acadêmica recente, quiçá, podemos até pôr o tempero proibido da "decadência", palavra tabu, mas que ressoa o "rebaixamento" (outra palavra tabu, porém, mais aceitável) do nível das instituições. Isso faz qualquer um ser bem visto num café e até permite dar entrevista para os grandes jornais. Agora, se alguém perguntar pela razão da produção e da distribuição desigual dessa cultura e o porquê isso não é motivo de reflexão explícita, o alerta de "militância" toca. Isso faz lembrar a contragosto, como um remédio amargo, que a universidade faz parte da sociedade sendo a sua autonomia relativa a outras forças sociais (mercado de trabalho atual e esperado, origem social e escolar discente e docente, cultura política dominante, valores em voga etc.), o que implica que as causas de seus problemas — pelo menos alguns deles — não vão se encontrar circunscritas em seus limites, cercadas pelos muros do campus ou pelas rédeas dos seus regulamentos. Nós sabemos que falar isso dessa maneira "é feio" (o Manifesto pela Liberdade e Pluralidade é bem mais elegante e, inclusive, para tornar o coro francês completo só faltou acrescentar a "Igualdade", mas aí já seria demais). Aqui não usamos palavras grandes e limpas como "pluralismo curricular" e "neutralidade institucional". Forçar o argumento na outra direção é lutar contra nossa própria couraça universitária que endureceu para resistir a um país que pressiona, ataca e questiona o direito de existir da universidade e dos universitários. Diante disso, apontar para os conflitos intestinos ao mundo universitário como a causa para a dita hostilidade nacional à universidade é uma ótima maneira de manter tudo como está e de manter a ilusão coletiva em que nós, a "comunidade acadêmica brasileira", conseguimos pautar o modo como a "sociedade brasileira" nos enxerga. (O que é compreensível, acho que todos nós gostaríamos de acreditar nisso).
Criticar o diagnóstico não é negar o problema. De fato, é um uso fundamental da razão científica pedir que o seu discurso se sustente para além da autoridade de quem o enunciou, mesmo que se trate da autoridade de um conjunto de cientistas em manifesto. Porém, um manifesto escrito por cientistas não é, automaticamente, um texto científico.
Notas
1. É de chamar atenção que no referido manifesto contra as cotas muitas pessoas que, já na época, estudavam os problemas raciais e sociais no Brasil vieram a se manifestar, intelectuais ligados à sociologia, história, antropologia.
Referência
https://www.congressoemfoco.com.br/noticia/97739/a-integra-do-manifesto-contra-as-cotas-raciais
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