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O peso do passado, o peso da família. Duas perguntas sobre epistemologia sociológica

O peso do passado, o peso da família. Uma nota sobre epistemologia sociológica O nível da crítica de Bernard Lahire à Pierre Bourdieu não é empírico, ao contrário do que se faz crer devido a sua considerável coragem empírica - é um problema para epistemologia da ciência saber se é possível realizar uma crítica baseado unicamente em dados empíricos per si. Como crítica teórico-empírica podemos, então, discutir a fundamentação lógico-objetiva, isto é, sua fundamentação ontológica e, mais importante que isso, as operações epistemológicas, de construção, pressuposta por sua teoria do mundo social. A tensão e descompasso triangular entre a ontologia pressuposta, as operações de pesquisa e os fatos teoricamente produzidos é o que permite considerar projetos científicos tanto em sua originalidade como em suas limitações. Vejamos essa variação: as disposições familiares de um indivíduo que se expressam em sua obra literária não seriam as mesmas caso o mesmo indivíduo manifestasse seu "gên...

Conceito, experimento, experiência.

Na teoria de Bourdieu, a prova sociológica de uma explicação é, não em última, mas talvez em uma mediana instância, uma prova existencial; ela diz implicitamente: “leitora, faça consigo mesma as operações de objetivação que torne uma parte de sua experiência sociologizável e, então, teste se este conceito lhe doa um outro sentido” ou, como ele dizia citando a Husserl: “é preciso uma variação eidética sociológica". Mesmo que o argumento tenha uma força empírica indubitável, é preciso fazer uma variação estrutural e buscar pensar o efeito daquela afirmação "em si", pressupondo a ontologia sociológica da sociedade, não sua metafísica consensual. Aí todo argumento ganha uma significação diferencial ou, se preferirmos, radical. Quando realizo uma pesquisa e descubro com meus esforços aquele mecanismo que a teoria havia dito que lá estava, não simplesmente reencontro algo que já sabia. Eu vivo a visão daquela coisa tal como nos maravilhamos ou nos assustamos ao conhecer algo d...

Bourdieu. Um banco de dados. Uma esfinge

Se for possível me expressar nos seguinte termos, ponho: a sociologia enquanto forma de conhecimento do mundo social - como Geistwissenschaft - tem como princípio explicativo geral o primado da relação social contra a aparência individualista que a existência dos corpos individuais retifica. Para além de uma defesa de um idealismo transcendental que reconhece na intersubjetividade, no fato de que o outro é um outro eu e é por essa relação com o alter  que o ego  pode se formar, o social e com isso oblitera a existência da relação social mesmo na ausência do eu em seu modo individuado (E. Benveniste e outros linguistas e antropologos descobriram múltiplos povos que não possuíam o pronome da primeira pessoa do singular, forma linguística que ao enunciar realiza um ato generificante que permite que (como dizia Hegel): "o espírito reconheça a si mesmo"), gostaria de propor uma breve reflexão calcada nesse descentramento sociológico que faz da relação e, por consequência, da exte...

Banco de referências continuamente alimentado para o estudo de análises de correspondência múltipla (ACM) e de análise geométrica de dados (AGD).

Referências que trazem exemplos e explicações sobre seu uso, suas implicações filosóficas e diferenças com outros métodos estatísticos. 1." Ainda que não haja regra precisa para definir o número de casos e que pesquisas conhecidas tenham sido feitas com baixos efetivos – vide Bourdieu (1999) –, existem controvérsias a esse respeito, sobretudo dada a discussão acerca do efeito de baixos efetivos de respondentes por modalidades na criação de distorções, tema que será abordado adiante. Com o objetivo de minimizar tais distorções, Giovanni Di Franco (2016), por exemplo, propõe que o número mínimo de casos seja definido em função do número de modalidades ativas, com a sugestão de adoção de vinte casos para cada modalidade ativa... Cabe ressaltar que a interpretação oferecida pelas ACMs é essencialmente decorrente da descrição e interpretação dos mapas e tem por princípio a não atribuição de independência a variáveis, por julgar os fenômenos da vida social como comp...

Resenha de Norbert Elias: A peregrinação de Watteau para ilha do amor. Companhia das Letras, 2005.

A análise de Norbert Elias no ensaio A peregrinação de Watteau para ilha do amor (2005[1983]), dividida em três partes, passa da descrição da tela em seus pormenores; a sua relação com o antigo regime francês e a entrada de A. Watteau na academia de artes concomitante a elaboração da utopia coletiva da nobreza que idealizava uma ilha de amor; até a recepção da obra na sociedade francesa pós-revolucionária, que já não mais se encontrava sobre o domínio da nobreza (Luís XIV, analisado na Sociedade de Corte ) e que via surgir um “campo artístico”, mercado de produtores para produtores, onde os princípios de avaliação estéticos não eram mais dependentes diretamente do gosto do público/mecenas leigo. Nessa atmosfera, vale a ênfase em características psicossociais que Elias tangencia como próprio a Watteau e que talvez não tenha sido mais explorado por falta de dados(?). De todo modo, já na análise "iconográfica" da primeira parte do ensaio não deixa de transparecer em sua lenta de...

Representações sinópticas de mecanismos sociais. Excerto de obras

Bourdieu. Esquema usado também em Teoria da Religião de M. Weber. Wacquant. Resolver o problema da raça. Sadiya Akram. Bourdieu, Habitus and Field. A Critical Realist Approach. Passeron e Grignon Bourdieu. O poder simbólico Esquema. Exteriorizar=Tornar passado. Interiorizar = tornar o passado vivo-presente, i.e., existente. A variar a perspectiva pode se identificar ou não produção com reprodução. O juízo que reúne as duas pontas é abstrato, o processo concreto envolve rupturas com continuidades e continuidades através de rupturas. Bourdieu. As regras da arte Bourdieu. Seminário sobre o conceito de campo. Csordas.

Pierre Bourdieu: Breve improviso sobre Beethoven, artista empreendedor

Breve improviso sobre Beethoven, artista empreendedor. Para acessar a publicação original em francês, clique aqui . Este texto é a transcrição corrigida de um trecho de um seminário de 1981 dedicado às relações entre “negociantes” de bens culturais (editores, diretores de galerias, empresários de concertos, produtores de filmes) e artistas (escritores, pintores, compositores, diretores) durante os quais , sem dúvida em reacção à cerimónia que se realizou ao mesmo tempo no Pantheon e que incluiu a execução da Nona Sinfonia, Pierre Bourdieu envolveu-se neste desenvolvimento improvisado de Beethoven. Agradecemos-lhe calorosamente por ter autorizado a publicação do que, certamente, constitui, tal como está, uma breve nota de trabalho, formulada oralmente à atenção dos alunos. Apareceu-nos muito mais: a generalização de um esquema de análise já testado no campo literário (Pierre Bourdieu, Les Règles de l'art, Paris, Seuil, 1992) e no campo da pintura (Pierre Bourdieu, “A institucionaliz...