Estava com um erro em mãos: jogá-lo no lixo ou guardá-lo como sinal do desvio? Detive-me um tempo observando o erro como quem olha para o futuro de seu passado. “Para quê? Dele não foi retido o aprendizado e o sentido, então, por que conservá-lo?”. Adiantei-me, com ímpeto de um certo cientismo ansioso e pensei: “ora, preciso lembrar do caminho de aprendizado, das etapas da mudança. Mas olhar para ele, no tempo que for, não seria como olhar para o mar e acreditar ser ele azul, esverdeado ou obscuro quando o que doa a sua cor para meus olhos é o céu sobre nossas cabeças?”. É certo que nosso platonismo espontâneo nos ensinou a cultuar a clareza do Sol e não a verdade infinita das noites estreladas.
O problema se expôs: relação entre esquecimento e verdade.
Não existiria algo de patológico ou, talvez, certa ingenuidade iluminista nessa necessidade de lembrar do erro, ao estilo do monumento do mal - como um Pelourinho ou uma Câmera de Gás - para evitar que o mal não se repita?
Parte do problema talvez esteja em que nossa consciência histórica - e, com ela, nossa própria relação com a história e a memória - é demasiadamente entópica (no sentido grego de en + topos, do “lugar de dentro”) e, por isso mesmo, entupida (aqui vale a homofonia que pronuncia o “u” como “ũ”). Uma memória entopida que é, literalmente, entupida: saturada, sem fluxo, incapaz de metabolizar o tempo.
Idolatria da recordação e enrijecimento valorativo
Seria preciso revermos o estatuto do museu em nossas sociedades: uma socióloga de Campina Grande recentemente apresentou como um dos resultados de sua pesquisa que frequentadores de museus do brejo paraibano, antigas “casas grandes” que conservam estruturas do trabalho escravo dizem, ao longo do passeio por tais lugares, que adorariam poder viver na pele como era ser um senhor ali dentro, ter tudo aquilo para si e a sua disposição. De acordo com a socióloga, as pessoas falavam disso evitando tocar no assunto da existência de escravos naquela forma de vida e mesmo as famílias donas da casa e que possuem o mesmo sobrenome compactuam com esse silêncio cúmplice ao evitar que o tema da escravidão seja falado mais que o necessário.
Precisamos cultivar outra relação com a história, uma relação utópica e nem por isso menos objetiva. Walter Benjamin nunca é excessivo ao nos lembrar que todo documento de cultura é um documento da barbárie: no dia de hoje, 25 de outubro de 2025, seria preciso olharmos para a invasão na USP por um grupo evangélico e nela ver evento semelhante a grande queima de livros realizadas por estudantes nazistas ou será preciso esperarmos 50 anos para ver nesse evento um documento da cultura brasileira e, logo, um documento da barbárie?
Incorporando o espírito da tradição dialética, da urgência do pensamento, haveríamos de fazer a crítica a história como tribunal do passado. Essa concepção está na base de toda passividade política diante da violência e barbaridade do tempo presente. Essa visão sempre chega tarde demais. Por exemplo, tal história tribunalesca vem após o fim do processo mostrar que aqueles taxados como criminosos, vagabundos, eram trabalhadores, camponeses, recem-libertos que não aderiram ao ethos capitalista porque não podiam ou porque não queriam e por isso foram compor os quadros de prisioneiros das leis antivadiagem. Daí, vai mostrar que eles eram portadores de um sentido histórico que os transcendia e que não estava claro no momento de sua existência mundana. A “lição” ética da história dos de baixo é epistemológica: a violência de ontem se torna o fato para o acadêmico de hoje e o símbolo da resistência de amanhã. Esse encadeamento entre fato (violência) e conceito (sentido) precisa ser subvertido. Precisamos operar variações eidéticas, precisamos nos perguntar se hoje em dia não temos equivalentes estruturais desses grupos dominados por não poderem participar da sociedade do trabalho dentro de seus termos legais e legítimos. Estar atento para o tempo presente é um dos modos de quebrar esse círculo vicioso onde a explicação fica a espera da morte do que há de ser explicado. Entender que o presente é histórico e injetar nosso conhecimento histórico no presente e, assim, quebrar o círculo vicioso do julgamento protelado.
Entretanto, existe uma diferença mínima, e muitas vezes determinante, entre a compreensão do passado e a compreensão do presente para o sujeito cognitivo. Essa diferença consiste em que a lembrança do trauma é mais aceitável — graças a sua distância enquanto algo ultrapassado — do que vê-lo e mesmo habitar junto com ele, junto de si, como processo em curso: o trauma do presente é a coisa que, por excelência, preferimos não ver, não pensar, não saber. Tal diferença, princípio de uma economia psíquica, está na origem da relação compulsiva com a lembrança:
• diante da lembrança do trauma ainda somos sujeitos;
• diante da violência que nos é presente e coextensiva, quando raro, somos objeto.
Precisamos cessar de deixar à história a função de dar dignidade, sentido e compreensibilidade ao indigno. É necessário uma recusa racionalista ao maior dos racionalistas e a toda tradição realista que diz que a história nada tem a ensinar para humanidade (Hegel). Essa outra concepção implica uma atitude com o mundo em que a verdade não se identifica mais a uma relação compulsiva com a origem esquecida ou, se preferirmos, com o próprio esquecimento do ser ou com alguma catástrofe. A humanidade livre precisará também aprender a esquecer.
Talvez o século XX tenha reforçado essa identidade neurótica entre verdade e aletheia: seja como desocultação, seja como lembrança do mal. Mas a dialética que atravessa o genocídio de Gaza devolve a nós mesmos o espelho da superficialidade dessa identidade e impõe a necessidade de repensar, radicalmente, o vínculo entre história e verdade, entre o erro e seu sentido instituído publicamente como memória de Estado. [Revisando esse texto, percebo que a relação a ser revisada não é entre História e Verdade, mas entre a história e o Estado]. Lembrar, absolutamente, não adianta se tal lembrança não estruturar e orientar a ação numa direção que supere o mundo cooriginário a lembrança. A linha é tênue, mas, a existência neste mundo – mundo este onde apesar de tudo que lhe ocorre ainda é possível uma vida cultural, política, "civilizada" – e sua lembrança, em seu modo de realizar-se, consegue dissociar o vínculo aparentemente dado entre memória e ação.
Adendo: Penso que, apesar de não ser intuitivo, toda essa relação que instauramos com nossa memória ainda ofusque o factum de lembrarmos de menos. Lembramos até o limite onde a possibilidade emerge - e lá paramos. Com todo o risco de repetir outros teóricos da utopia, precisamos lembrar do não-ser, do que não foi, das possibilidades interditadas na determinação do processo social. É preciso descobrir o não-ser.
Essa dialética entre possibilidade e realização, na compreensão histórica, é o fundamento da utopia racional (tão cara a Bourdieu e a Bloch) e da percepção das possibilidades inscritas - ainda que esmagadas - em todo desenrolar dos fios do mundo.
Ao contrário do que nos dizem diante da bela roupa da dominação, as pontas soltas devem ser puxadas.
Adendo, 18 de novembro: o esquecimento verdadeiro depende da liberdade concreta e geral. A dominação traz consigo a obrigação da memória, de um cultivo político-racional da memória, diferente do culto estatal e desrealizante dos monumentos históricos. Esquecer a violência em um mundo alienado não é verdadeiramente esquecer, é só mais um ato de ignorância ativa, como o apenado que vira o rosto para não ver o momento em que o golpe lhe será aplicado.
Antes da emancipação, o perdão é administração moral da dominação; e o esquecimento é uma forma psicológica de suportar o intolerável. É aprender a suportar a violência e a se conciliar com seu lugar no mundo, com esta "parte que te cabe nesse latifúndio". Para rever um ponto do texto exposto: a emancipação não torna possível o esquecimento, ele o torna irrelevante. Dentro de uma sociedade injusta e desigual, perdão, esquecimento e reconciliação são categorias que indicam diferentes modos de adequação à violência.
Obs: Esse texto foi escrito em 25 de outubro, dias antes do massacre ocorrido no Rio de Janeiro sob o governo de Cláudio Castro sob o lema da "guerra as facções". O governador, diante do número exorbitantes de mortos disse, porém, que só havia ocorrido quatro vítimas, que seriam os policiais. O resto, simplesmente, seria o resto.
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