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A estrutura do padrão de escolha do namoro digital. Páginas 192-195. Andreas Schmitz.

 O 'hiperfoco' no namoro online, assim como muitos outros desenvolvimentos sociais da modernidade tardia, incorpora uma estruturação dialética, que gera simultaneamente tanto a unificação social quanto a separação social. Deste ponto de vista, a vantagem metodológica do namoro online não é, como frequentemente enfatizado pelos mais diversos cientistas (discordando em tudo, exceto na reverência pelo assunto), que as estruturas são relativizadas, e as preferências de acasalamento ou a crise do romance podem ser observadas em sua forma mais pura, mas sim que a operação do habitus e, portanto, da estrutura social pode ser observada de maneira especialmente explícita (cp. Schmitz 2012). É em circunstâncias de abundância numérica de parceiros potenciais de todas as classes sociais que a escassez e a hierarquia de bens simbólicos se tornam claramente evidentes. A reduzida significância das barreiras sociais na internet em geral e nas plataformas de namoro online em particular faz do n...

Ainda parte do problema

Nesse fim de semana eu vi um filme de um diretor indiano, Shyamalan, chamado Old. Esse diretor sempre trabalha algo na linha de um realismo fantástico que termina por fundir o fantástico e o político, tentando dar conta da máxima dos perplexos: “a realidade supera a ficção”, vou me explicar. No ápice de seus filmes, tudo aquilo que pareceria mágico como os monstros, a vida eterna, superpoderes não passam de uma situação gerada por um grupo de ricos que estão controlando tudo. Por trás do fantástico sempre está uma conspiração idiota. E a conspiração do filme Old é a indústria farmacêutica. Faço esse parênteses por esse filme, que tem momentos de muita beleza em que toda determinação política da desgraça dos personagens é suspensa, para frisar, ad absurdum, a situação brasileira na atual sociedade capitalista - acabo de ler a matéria da Agência Pública: Marielle, milícias e mais: relatórios de inteligência da intervenção militar no RJ sumiram.  Determinações econômicas brutais e cad...

Willian Labov. Entrada no Vocabullaire Bourdieu

(tradução nossa) Willian Labov (1927) é o fundador da sociolinguística interacionista. Aluno de Uriel Weinrich, ele escreveu seus primeiros trabalhos na área da dialectologia estrutural. Contrariamente a linguística estrutural tradicional, esta abordagem procurou a integração no modelo linguístico a existência de variáveis linguísticas socialmente e espacialmente condicionadas. Desde sua primeira pesquisa, em Martha's Vineyard em Massachssets, Labov mostra que a distribuição de variáveis linguísticas depende de uma analise adequada da estrutura social da comunidade. A partir do caso de Martha's Vineyard, ele constatou uma clivagem entre aqueles que desejam permanecer na ilha e aqueles que, em razão de sua trajetória social, desejam partir [Labov, 1976]. De modo mais decisivo, em sua segunda pesquisa em Nova York, Labov não se contentou em só verificar a existência d euma covariação linguística e social mas também fez aparecer a existência de um segundo eixo de variação, de ord...

Sobre um texto enigmático de Pierre Bourdieu. Por Jérôme David

  "As referências a certas obras literárias parecem ter alimentado o pensamento erudito de Bourdieu. Encontramos isso na maioria de seus textos na forma de análises fundamentadas, citações, trechos ou alusões, embora, na maioria das vezes, seus comentários não sejam sobre literatura. Nesse sentido, os usos mais frequentes que o sociólogo faz da literatura não consistem em propor uma sociologia dela, mas em preparar ou apoiar, até mesmo complementar sequências de seu raciocínio. É, portanto, apropriado distinguir a relação sociológica de Bourdieu com a literatura, que dificilmente me interessa aqui, e este outro conjunto de relações tecidas a partir do conluio e da aliança com escritores. Sem entrar nos detalhes de uma investigação que me levaria muito além do quadro de um artigo de jornal, gostaria de apontar quatro modalidades dessa relação não objetivante entre Bourdieu e a literatura: (a) o uso de obras literárias consideradas como repertórios de técnicas (enunciativas, narrati...

Do campo ao espaço de serviços. Em Lemieux, O crepúsculo dos campos

Seção de um capítulo de Cyril Lemieux intitulado O crepúsculo dos campos no livro  Bourdieu, teórico da prática. Link: https://books.openedition.org/editionsehess/11772#bodyftn32 [...] DO CAMPO AO ESPAÇO DE SERVIÇOS Foi num texto publicado em 1996 sob o título Sur la Télévision – transcrição de dois cursos do Collège de France veiculados no mesmo ano pelo canal de televisão Paris Première – que Bourdieu talvez tenha trazido mais claramente à luz o que implica, se assim manter-se coerente consigo mesmo, uma concepção restritiva do conceito de campo. Os desenvolvimentos contemporâneos da actividade jornalística em França deram-lhe, de facto, a oportunidade de se interrogar, talvez pela primeira vez, sobre os mecanismos sociais através dos quais os campos podem sofrer retrocessos para a heteronomia, na medida em que a sua existência, enquanto campo, fica assim comprometido. Ao não hesitar em abrir tal reflexão, simétrica àquela realizada três anos antes em As regras da arte sobre...

Trecho do livro Geometria do Espaço Social de Pierre Macherey.

Trecho do livro de Pierre Macherey, Geometria do espaço social: Pierre Bourdieu e a filosofia. • Excursus: o tratamento do referente pascaliano  O livro, no post-scriptum do segundo capítulo, apresenta cerca de dez páginas intituladas "Como ler um autor?" (ivi, pp. 91-98), em que Bourdieu, a exemplo de Baudelaire, ralha violentamente contra os maus hábitos de uma leitura, que considera escolástica, dos "autores", auctores , cuja "neutralidade desrealizadora" denuncia nos seguintes termos: "Um dos clichês mais banais da celebração dos “clássicos”, que acaba por relegá-los a um limbo vazio, fora do tempo e do espaço, em todo caso a uma grande distância dos debates e lutas de o presente, paradoxalmente consiste em descrevê-los como nossos contemporâneos e nossos vizinhos, os mais próximos dos vizinhos - tão contemporâneos e tão próximos que não nos fazem duvidar nem por um momento da compreensão aparentemente imediata (mas na verdade mediada por toda a ...

"A esquerda precisa de Bourdieu ?" [Tentativa de] Crítica de Bruno Latour a Pierre Bourdieu.

  "Essa ideia de que se pode dar um curto-circuito na vida pública porque se possui uma ciência que daria as leis da história e que permitiria situar-se à esquerda da esquerda tem um precedente: o marxismo. Bourdieu certamente não é um Lenin..." (Latour). Com essa frase que leremos no artigo abaixo se torna palpável graças a analogia que traça, de modo  negativo, a intensa dialética que animou a prática científica de Bourdieu que buscava sempre desfazer a dicotomia entre "erudição e compromisso" sem fazer falsas equivalências entre a generalidade das capacidades representativas distribuídas por todo o tecido social - sim, Latour, os dominados pensam! - e o efeito unificador próprio a síntese teórica que possibilita uma homogeneização de princípios representativos básicos para facilitar uma prática coletiva. (Há condições sociais até mesmo para desconfiar da ciência, e ela se indicia ainda mais quando quem o faz está no topo da estrutura acadêmica). No mais, seguimos...